Dr. João Alfredo Kleiner - DVM, MSc.
 
 

Epilepsia em Gatos

Definição

Manifestação clinicamente detectável de disritmia cerebral paroxística incluindo alteração de consciência, função motora involuntária aumentada ou reduzida, alteração das sensações, sinais autonômicos e distúrbios comportamentais em qualquer combinação.

 

Patofisiologia

As crises epiléticas são causadas por descarga hipersincrônica de uma grande população de neurônios tálamo-corticais devido ao desequilíbrio entre mecanismos inibitórios e excitatórios.

Sistemas afetados

Sistema nervoso central.

Sinais clínicos

  • As crises epiléticas começam repentinamente, são passageiras, terminam abruptamente, e freqüentemente são seguidas por distúrbios pós-ictais.
  • As crises epiléticas podem ser generalizados com sinais motores bilaterais ou parciais (focais) com sinais motores unilaterais ou sinais comportamentais estereotipados.
  • As crises podem ser convulsivas com atividade motora generalizada e violenta ou não convulsivas com apenas sinais motores sutis ou mínimos (ex. tremor facial).
  • Crises não convulsivas, bizarras e atípicas são comuns em gatos.

 

Causas

Causas extracraniais

  • Metabólicas – hipoglicemia severa, policitemia e encefalopatia hepática avançada.
  • Toxicidade – várias intoxicações em estágio avançado de doença

Causas intracraniais

  • Epilepsia funcional (idiopática ou genética) – pouco documentada em gatos.
  • Doenças estruturais do cérebro – de longe a mais comum em gatos.
  • A anormalidade estrutural pode ser uma lesão ativa ou inativa levando à epilepsia secundária:
    • Ativa – meningoencefalite de origem desconhecida ou suspeita de origem viral ou talvez origem imunomediada; encefalopatia isquêmica felina; e tumores cerebrais (p.ex. meningioma) são as causas mais comuns. Encefalites (ex. PIF, toxoplasmose, infecções bacterianas ou fúngicas, e miíases são bem menos comuns).
    • Inativa – Lesão pós-encefalite, pós-infarto (encefalopatia isquêmica felina), e pós-anóxia ou isquemia (p.ex. relacionadas ao nascimento), e epilepsia pós-traumática.

 

Diagnóstico

Diagnóstico diferencial

  • Síncope – perda repentina de consciência e tônus muscular resultando em decúbito e flacidez. Pode ser seguida por um estágio secundário de características similares a uma crise (raro). Com atividade convulsiva verdadeira, o decúbito é causado por atividade motora anormal. O histórico e o exame físico geralmente revelam pistas (p.ex. anormalidades cardiovasculares como sopro cardíaco ou arritmias) que possibilitam a diferenciação. Gatos com atividade convulsiva verdadeira podem ter comportamento anormal no início, sinais autonômicos como salivação, piloereção, urinar durante a crise, e esta é freqüentemente seguida por um período de desorientação.
  • Distúrbios do sono – características similares às da crise epilética ocorrendo exclusivamente durante o sono. O gato exibe um comportamento normal após despertar ao contrário dos distúrbios pós-ictais vistos após ataques verdadeiros.
  • Causas extracraniais (metabólicas e tóxicas) - São raras em gatos. Caracterizadas por um início agudo de crises generalizadas contínuas ou múltiplas e sem déficits neurológicos focais. Gatos com distúrbios metabólicos têm outros sinais clínicos, laboratoriais e histórico. Gatos com toxinas que causam convulsões progridem de agitação para tremores e finalmente para ataques convulsivos que continuam até o tratamento ser estabelecido.
  • Sinais de doenças estruturais do cérebro. Devem ser cuidadosamente pesquisados se o gato apresentar: (1) um início agudo de ataques múltiplos ou de alta freqüência na ausência de causas extracraniais; (2) convulsões parciais; (3) déficits neurológicos sutis de origem tálamo-cortical (ex. resposta à ameaça, sensação do septo nasal, ou posicionamento proprioceptivo e de pular).

Hemograma, bioquímica e urinálise

  • Resultados geralmente normais a menos que o gato tenha uma doença multisistêmica como encefalite fúngica, bacteriana ou por protozoário.
  • Em gatos com policitemia, o hematócrito é geralmente >60%.

 

Outros testes laboratoriais

  • Testes sorológicos para FeLV, FIV, PIF e Toxoplasma gondii geralmente não contribuem para o diagnóstico a menos que o gato tenha sinais sistêmicos concomitantes.
  • Teste dos ácidos biliares é indicado apenas quando o gato tem sinais clássicos de encefalopatia hepática (ex. depressão episódica, demência e salivação que duram horas).

Diagnóstico por Imagem

  • Radiografia do crânio geralmente não é conclusiva, mas podem revelar meningioma calcificado ou hiperosteose craniana associada.
  • Imagem do cérebro (p.ex. Tomografia computadorizada e principalmente ressonância magnética) são mais úteis para identificar e definir lesões cerebrais estruturais.

Outros procedimentos diagnósticos

A análise do líquido cefalorraquidiano (líquor) é útil para detectar uma doença do cérebro mas os achados são freqüentemente inespecíficos.

Tratamento

  • Tratar a causa se possível.
  • Terapia anticonvulsivante imediata e agressiva se o gato tem (1) mais do uma única crise a cada 6 a 8 semanas, (2) crises epiléticas cumulativas (cluster), ou (3) estado epilético tanto convulsivo como não-convulsivo.
  • O objetivo do tratamento é menos de uma convulsão a cada 6 a 8 semanas.
  • Gatos com crises epiléticas cumulativas severas ou estado epilético devem ser hospitalizados até que o controle seja obtido.
  • Uma vez que ataques em gatos geralmente resultam de uma doença estrutural, o proprietário deve ser encorajado a permitir uma pesquisa diagnostica para que um tratamento específico possa ser aplicado se necessário. Em gatos com doença estrutural ativa, a medicação antiepilética é apenas um tratamento sintomático.

Medicações

Drogas e Fluídos

Crises cronicamente recorrentes

Fenobarbital (2-5 mg/kg PO BID). Segunda tentativa, diazepam (0,5-1,0 mg/kg BID - TID).

Crises epiléticas cumulativas graves e estado epilético

  1. Diazepam (1-2 mg/kg IV bolus); pode ser repetido se a maior parte da atividade convulsiva não tiver parado em 5 minutos;
  2. Iniciar imediatamente uma infusão de diazepam (0,5-1,0 mg/kg/h) no fluido com bomba de infusão (cubra a linha de infusão e a bolsa com papel alumínio e prepare apenas 1 a 2 horas de infusão de cada vez);
  3. Se a crise persiste, aumente a dose de diazepam e/ou adicione fenobarbital (0,5-1,0 mg/kg/h) à infusão;
  4. Quando as crises estiverem sob controle por pelo menos várias horas, lentamente diminua a taxa de infusão;
  5. Inicie o fenobarbital oral assim que possível;
  6. Pode-se administrar dexametasona (0,25 mg/kg) para crises extremamente severas (p.ex. prolongadas ou freqüentes, convulsivas ou não-convulsivas). Isto pode ser contra-indicado em gatos com doença infecciosa e também interfere na análise do líquor.

Contra-indicações

  • Tiamina, glicose e cálcio não devem ser administrados a menos que uma deficiência seja documentada.
  • Não administre acepromazina, ketamina, ou xilazina a pacientes com distúrbios convulsivos, histórico ou potencial para tal.

Precauções

Terapia anticonvulsivante parenteral intensiva requer monitoramento constante e cuidado (p.ex. hipotermia é comum, atividade epilética sutil e persistente difícil de reconhecer, e potencial depressão cardiovascular e respiratória com a super-dosagem).

Interações possíveis

  • Não use cimetidina e cloranfenicol com fenobarbital.
  • Corticosteróides podem reduzir a concentração sérica de fenobarbital (dose-relacionada)

Monitoramento do paciente

Medida da concentração sérica de drogas antiepiléticas:

    1. Em 10-14 dias de fenobarbital ou 5-7 dias de diazepam após o início do tratamento; ajuste a dose se necessário para alcançar uma concentração ótima de 100-130 µmol/L (23-30 µg/ml) (fenobarbital) ou (200-500 ng/L) (diazepam);
    2. Verifique a concentração sérica 2 semanas após qualquer modificação na dosagem.
  • Provas de benzodiazepina ainda não estão disponíveis e as concentrações séricas terapêuticas são menos definidas em comparação ao fenobarbital, tornando o último preferível.
  • Monitoramento da bioquímica e concentração sérica da droga antiepilética a cada 6-12 meses.
  • Se o gato está livre de convulsões por mais de 12 meses consecutivos, pode-se tentar diminuir a droga anti-epilética ao longo de um período de alguns meses. Se as crises recorrem em uma freqüência maior de uma única crise a cada 6-8 semanas, retomar o tratamento.

Complicações possíveis

- Hipersensibilidade ao fenobarbital – trombocitopenia, neutropenia, dermatite, e edemaciamento dos membros têm sido observado em alguns gatos; repetir a bioquímica dentro de algumas semanas após o início do tratamento. Pode ser necessária a suspensão da droga (substituir por diazepam).

- Um aumento marcante na concentração sérica de fenobarbital sem modificação de dosagem, acompanhada por sedação e talvez melhor controle das crises podem ser os primeiros sinais de falência hepática.

- Se crises de alta-freqüência são refratárias ao regime de uma única droga, adicione diazepam ao fenobarbital e vice e versa; consulte um neurologista veterinário para outras opções de terapia.

Fatores relacionados à idade

Tumor cerebral, especialmente meningioma, mais comum em gatos de mais de 10 anos.

Sinônimos

Convulsões (crises convulsivas)

Trabalho traduzido pela acadêmica Talita Aleixo Saran durante seu período de estágio extracurricular no Hospital Veterinário São Bernardo / IOVC (Instituto de Oftalmologia Veterinária de Curitiba), Fevereiro 2007.


 

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