Dr. João Alfredo Kleiner - DVM, MSc.
 
 
Leptospirose

Leptospirose é um problema no mundo todo e uma importante causa de doenças crônicas e agudas em cães (septicemia, hepatite, nefrite, aborto e nascimento prematuro) e em outros animais e é causada por membros patogênicos do gênero Leptospira. A vacina para cães contém os sorovares L. canicola e L. icterohaemorrhagiae que promovem imunidade aos sorovares homólogos mas não pode prevenir a colonização dos rins dos cães o que resulta num estado de reservatório crônico. A vacina é sorovar-específico e não protege contra outros sorovares presentes na natureza.

Patofisiologia

A Leptospira penetra a pele intacta ou ferida ou membranas mucosas, invadindo rapidamente a corrente sanguínea (4 - 7 dias) e se espalha por todas as partes do corpo (2 - 4 dias) resultando em febre, leucocitose, anemia transitória (hemólise), hemoglobinúria e albuminúria. A febre e a bacteremia logo se resolve e um dano às células endoteliais e citotoxidade capilar ocorre (petéquias hemorrágicas). A leptospirose invade e se multiplica no fígado (necrose hepática) e nos rins (leptospirúria) e anticorpos podem ser detectados neste estágio. Nesta fase a morte pode ser resultante de septicemia aguda, anemia hemolítica, nefrite intersticial focal e dano vascular. A leptospirose pode se localizar nos tubos renais o que resulta numa prolongação da doença, podendo causar morte nefropática e falência renal.

Sistemas Afetados

Forma Sub-aguda à aguda/Grave

* Renal / urológica: nefrite intersticial focal, nefrose hemoglobinúrica, danos aos tubos/falência.

* Hepatobiliar: hepatite, disfunção, necrose.
* Cardiovascular: danos nas células endoteliais, hemorragia.
* Nervoso: meningite.

Forma Crônica

* Urogenital: falência renal crônica, aborto e filhotes prematuros frágeis.
* Oftálmica: uveíte anterior.

Incidência / Prevalência

* Normalmente um ou mais sorovares são considerados para uma doença endêmica em uma área geográfica.
* Tradicionalmente, os sorovares L. canicola e L. icterohaemorrhagiae causam doenças em cães e as variedades L. grippotyphosa e L. pomona estão tornando-se mais proeminente.
* A incidência relatada é falsamente baixa pois a maioria das infecções em cães são sub-clínicas e permanecem não diagnosticadas.
* Infecções pelo sorovar L. canicola são mais comuns no mundo (ex.: L. icterohaemorrhagiae na Austrália).
* A prevalência em cães urbanos é maior (37,8%) do que em cães suburbanos (18,7%).

Distribuição Geográfica

As ocorrências mundiais são maiores em climas quentes e úmidos, com áreas de água parada e solo de Ph neutro.

Espécies

Cães e, raramente, gatos.

Idade Principal de Aparecimento

* É bem provável que cães jovens sem anticorpos maternos passivos tenham doenças graves.
* Cães mais velhos com níveis de anticorpos adequados raramente exibirão doenças clínicas ao menos que se expostos a um sorovar fora da vacina.

Sexo Predominante

Machos são freqüentemente mais afetados.

Sinais clínicos

* Sinais clínicos variam conforme a idade e situação de imunidade do animal, fatores ambientais afetam a sobrevivência da leptospira e virulência do sorovar infectante.
* A doença ou infecção é rara em gatos.
* O hospedeiro (receptor) primário pode eliminar um sorovar específico da leptospira via urina sem demonstrar sinais clínicos ou demonstrando doenças menos graves (nefrite intersticial ou difusa aguda).
* Receptor incidental (acidental) forma severa (febre, hemorragia, anemia, icterícia fulminantes).

Anamnese

* Doença de leve para sub-aguda: febre, dor muscular, andar rígido, anorexia, depressão, vômito, desidratação, diarréia (com ou sem sangue), icterícia, tosse, distrição respiratória, PU/PD (anúria na forma crônica), sangramento vaginal e morte (sem sinais clínicos).

* Doença crônica: sem aparentar, febre de origem desconhecida e PU/PD (falência renal crônica).

Exame físico

* De leve à aguda: febre, fraqueza, anorexia, vômito, taquipnéia, pulso rápido e irregular, baixa perfusão capilar, hematemese, hematoquezia, melena, epistaxe, mucosas hiperêmicas, petéquias, icterícia, equimose, relutância ao se movimentar, andar rígido, conjuntivite, rinite, hematúria, e linfademopatia leve.

Causas

Sorovares patogênicos do gênero Leptospira capazes de infectar cães ( L. canicola, icterohaemorrhagiae, pomona, grippotyphosa, bratislava, copenhagenii, australis, autumnalis, ballum, bataviae ) e nos gatos ( L. canicola, grippotyphosa, pomona, bataviae ).

Fatores de risco

* Transmissão direta: hospedeiro a hospedeiro via urina infectada, secreção pós-aborto, secreções de feto infectado e contato sexual (sêmen).
* Transmissão indireta: exposição à ambiente infectado via urina (vegetação, solo, comida, água, canil) sob condições que o vírus pode sobreviver.

Fatores de indivíduos que podem aumentar a vulnerabilidade à doença

* Estado vacinal. A proteção da vacina é apenas contra sorovares específicos, irá prevenir doenças clínicas resultantes de uma infecção por sorovar equivalente, mas não necessariamente a colonização dos rins.
* Cães jovens e machos correm risco maior.
* Animais não domesticados, cães de caça e cães que vivem fora de casa podem aumentar o risco de infecção.

Fatores ambientais

Condições favoráveis para a sobrevivência da leptospira fora do hospedeiro:

* Ambiente quente e úmido (temperatura variando de 7-10 o C a 34-36 o C)
* Presença de água parada com PH neutro.Ela sobrevive 180 dias em solo molhado, maior incidência da doença em estações úmidas ou regiões temperadas, áreas baixas alagadas ou com lama, regiões tropicais e subtropicais úmidas.
* Densidade de população animal (urbanos verso rurais) aumentam chances de exposição.
* Exposição à roedores e vida selvagem.

DIAGNÓSTICO

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

*Infecções subclínicas e cães com portadores crônicos não são detectados.

Doenças de subaguda à aguda

Cães
Dirofilariose, anemia imunomediada, bacteremia/septicemia (ferida, prostatite, endocardite, doença dental), vírus de hepatite canina infecciosa, herpes canina, neoplasia hepática, trauma, lúpus, erlichiose, toxoplasmose, neoplasia renal, cálculos renais.

Gatos
Hemobartonelose, drogas (acetaminofem), bacteremia/septicemia, FIV e FeLV doenças associadas, colangite, toxoplasmose, PIV, neoplasia hepática, doença auto-imune (LES), trauma, cálculo renal, neoplasia renal.

Doenças reprodutivas/neonatal

Cães
Brucelose, cinomose, herpes.

Gatos

FIP, FeLV, panleucopenia, vírus da herpes, toxoplasmose, salmonelose.

HEMOGRAMA/ BIOQUÍMICA/ URINÁLISE

Hemograma

Hematócrito e o total de sólidos no plasma aumentados (desidratação) ou baixo (hemólise); leucocitose com alteração esquerda (leucopenia inicia durante a fase leptospirêmica); trombocitopenia; aumento da degeneração das fibrinas produzidas.

Perfil Bioquímico Sérico

Uréia e creatinina aumentados (dependente do grau da falência renal); alterações eletrolíticas (dependente do grau da disfunção renal e GL); hiponatremia; hipocloremia; hipocalemia (hipercalemia com falência renal); hiperfosfatemia; hipoalbuminemia; baixo bicarbonato sérico; ALT (alanina aminotranferase sérica), AST (aspartato aminotransferase sérico), LDH (lactato dehidrogenase sérico), Fosfatase alcalina aumentados.

Urinálise

Proteinúria, isostenúria e glicosúria (falência renal aguda)

OUTROS TESTES LABORATORIAIS

* Sorologia : teste da microaglutinação feito em estágio agudo, e 3 à 4 semanas depois da infecção, em animais não vacinados a taxa pode ser baixa (1:100 – 1:200) mas pode aumentar na amostra convalescente até 1:800 ou mais se um sorovar da leptospira homóloga for testado. Em animais vacinados, espera-se um índice não maior que 1:400 sendo os sorovares L. canicola e L. icterohaemorrhagiae , e para outros sorovares a informação acima é a mesma, a idéia é que as amostras séricas sejam feitas no mesmo período.

* O exame no microscópio de campo escuro, utilizando anticorpos fluorescentes da urina é inconclusivo, difícil de ler e requer urina fresca. Testes de urina centrifugada e não centrifugada são mais conclusivos e os vírus da leptospirose não precisam ser viáveis ao teste (submeter à urina no laboratório sobre o gelo) precisa-se correlacionar os resultados com o histórico clínico.

OUTROS MÉTODOS DE DIAGNÒSTICO

* Cultura de fluidos corporais (urina, sangue) e tecidos (rim, fígado, feto, placenta) não é sempre prático por causa da pouca resistência da leptospira ao transporte.

* FA deve ser feito em todos tecidos, submetendo-os a análise pós-morte especialmente rim e fígado.

TRATAMENTO

INTERNOS vs. EXTERNOS

Casos greves e agudos devem ser tratados como internos. A extensão do apoio terapêutico depende da gravidade da doença.

ATIVIDADE

Animais com doença aguda e animais septicobacterianos devem ter atividades restritas em gaiolas, monitoramento e aquecimento.

DIETA

Doentes graves são geralmente anorexicos, em choque e letárgico.

EDUCAÇÃO AO CLIENTE
O potencial zoonótico da urina de cães infectados.

MEDICAÇÃO

DROGAS E FLUIDOS

* A terapia adequada depende da gravidade da doença.
* Pacientes com desidratação e choque devem ser tratados com solução parenteral balanceada isotônica IV.
* Se uma hemorragia grave estiver presente, pode ser necessário uma transfusão de sangue.
* Oliguria e anuria inicialmente trata-se com reidratação, depois diurese osmótica IV, e diuréticos tubulares, pode haver necessidade de diálise peritoneal.
* Terapia antimicrobiana: uso de procaína penicilina G (40,000- 80,000 U/kg, IM, cada 24h ou dividido cada 12h) até que a função dos rins se restabeleça; para eliminação das leptospiras dos tecidos renais utiliza-se dihidrostreptomicina (10-15 mg/kg, IM, cada 12h por duas semanas), se não houver falência renal usa-se estreptomicina ou doxiciclina (5.0 mg/kg PO cada 24h).

PRECAUÇÕES

Aaminoglicosideos não pode ser usada em pacientes sem o rim totalmente restaurado.

DROGAS ALTERNATIVAS

Ampicilina ou amoxicilina no lugar de penicilina; erythromycina.

MONITORAMENTO DO PACIENTE

O prognóstico é reservado em doenças agudas e graves. As funções dos rins e fígado devem ser monitoradas e alterações no BUN, concentração de creatina e a gravidade na urina de cães são indicadores do prognóstico.

PREVENÇÃO

* Vacinar os cães conforme as recomendações; a imunidade às bactérias dura de 6 a 8 meses e é sorovar-específico. A vacinação deve ser feita anualmente, cães de alto risco devem ser vacinados de 4 a 6 meses em áreas edêmicas.
* Desinfecção dos canis para evitar contato com a urina.
* Monitorar e remover cães portadores dos canis até que estejam tratados.
* Controle de roedores nos canis.
* Isolar animais infectados durante o tratamento.
* Limitar acesso à tanques, áreas alagadas e pastos irrigados.
* Limitar acesso à vida selvagem.

POSSÍVEIS COMPLICAÇÕES

* A maioria das infecções são subclínicas e crônicas.
* Prognóstico reservado em animais com doença grave.
* Coagulação intravascular disseminada (CID).
* Possibilidade de seqüelas de uveíte e aborto.

FATORES RELACIONADOS Á IDADE

Doenças graves em cães jovens não vacinados ou pela falta de anticorpos maternos.

POTENCIAL ZOONÓTICO

* Alto potencial zoonótico.
* Organismos da leptospira se espalha na urina de infectados.
* Higienização severa e desinfecção à base de iodo ou amônia (água sanitária estabilizada).
* Indivíduos portadores devem ser tratados.

GESTAÇÃO

O aborto é uma possível seqüela da leptospirose; na terapia antimicrobiana deve ser levado em consideração o efeito da droga no feto em desenvolvimento.

Referências Bibliogáficas:
Baldwin CJ, Atkins CE. Leptospirosis in dogs. Compen Com Ed Pract Vet 1987;9:499-508.
Heath SE, Johnson R. Leptospirosis. JAVMA 1994;205:1518-1523.
Autor: Patrick L. McDonough.
Artigo traduzido e adaptado pela acadêmica Élen Regina Mijieski , durante período de estágio (Jan/Fev 2008) no Hospital Veterinário São Bernardo, IOVC (Instituto de Oftalmologia Veterinária de Curitiba).