TRANSPOSIÇÃO DO DUCTO
PAROTÍDEO
PAROTID DUCT
TRANSPOSITION
KLEINER, J.A.
Resumo: O filme lacrimal
pré-corneano é constituído por três
fases distintas. A camada mais externa é formada de
lipídios, a intermediária de água e a
interna, que está em contato íntimo com a córnea,
é constituída de mucina. As desordens do filme
lacrimal podem ser tanto de caráter qualitativo (distúrbios
das glândulas tarsais e células caliciformes)
ou quantitativo, ou seja, um decréscimo da produção
água lacrimal originando o “olho seco”.
O presente trabalho tem como objetivo demonstrar a cirurgia
de transposição do ducto parotídeo para
o tratamento dos casos refratários de ceratoconjuntivite
seca (olho seco) que não respondem satisfatoriamente
a terapia tópica ocular principalmente com o uso da
ciclosporina ou naqueles casos em que a terapia torna-se inviável.
Unitermos: ceratoconjuntivite, olho seco,
ducto parotídeo.
Abstract: The preocular
lacrimal film is a trilaminar fluid consisting of lipid, mucin
and aqueous component. The abnormalities affecting the lacrimal
film can be either qualitative (disturbances of the tarsal
glands and globet cells) or quantitative due to a lower aqueous
layer production originating the so-called “Dry Eye”.
The lack or lower quantity of tears can cause a progressive
inflammation and chronic infection on the affected eye originating
an extensive pigmentation on the cornea and even causing blindness.
This article intends to show the procedures utilized in the
parotid duct transposition for treating the refractory cases
of keratoconjunctivitis sicca (dry eye) on which the topical
therapy, mainly utilizing cyclosporin, do not have a satisfactory
response or when the therapy is not feasible.
Keywords: keratoconjunctivitis, dry eye,
parotid duct.
O filme lacrimal pré-corneano
é um fluído trilaminar constituído por
um componente lipídico, aquoso e mucinoso. A camada
mais externa é a lipídica de aproximadamente
0,1 µm de espessura e é produzida pelas glândulas
tarsais (meibomio) e de Zeis, sua principal função
é a de retardar a evaporação da água
lacrimal. A camada intermediária é a aquosa,
produzida pelas glândulas lacrimais da órbita
(glândula lacrimal principal, Kraus e Wolfring) e da
terceira pálpebra. É a fase mais espessa do
filme lacrimal e tem como principais funções
a nutrição, lubrificação córneo-conjuntival
e remoção de metabólitos (ácido
graxo e CO2) e debris. A camada mais profunda e em contato
direto com o epitélio corneano é a de mucina,
produzida pelas células caliciformes da conjuntiva
e sua principal função é de tornar a
superfície hidrofóbica da córnea em hidrofílica
(aderente a água), permitindo sua hidratação
e uma maior uniformidade no recobrimento lacrimal ocular 1.
As desordens de qualquer componente do
filme lacrimal podem ser tanto de caráter qualitativo
quanto quantitativo, e possuem como característica
principal o comprometimento da dinâmica e função
lacrimal. Dentre estas podemos destacar a ceratoconjuntivite
seca (CCS), que se caracteriza por uma deficiência da
fase aquosa da lágrima originando uma inflamação
progressiva córneo – conjuntival com perda parcial
ou completa da acuidade visual, ceratite pigmentar, neovascularização
corneana, conjuntivites secundárias, corrimento ocular
mucoso e lesões corneanas de caráter ulcerativo.
Entre as raças predispostas destacamos o Bulldog Inglês,
Lhasa Apso, Pugs, Pequinês, Cocker Spaniel, Yorkies,
Shih Tzu, Schnauzers miniatura, West Highland White Terrier
e Dachshunds 2.
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| Foto 1: Aspecto
de um olho afetado por ceratoconjuntivite seca. Nota-se
a presença de expressiva ceratite pigmentar, edema
e neovascularização corneana. Pode-se observar
a presença de catarata madura secundária
e luxação lenticular anterior. |
Etiologicamente podemos dizer que a CCS
pode ser de origem congênita (alacrimia) ou hereditária,
relacionada a drogas (atropina, sulfas, anestésicos,
etc), doenças sistêmicas (hipotiroidismo, diabetes,
hiperadrenocorticismo), blefaroconjuntivites crônicas,
neurogênica (afecções do trigêmio
e nervo intermédio), adenite imunomediada (75% dos
casos), trauma ocular e iatrogênica (remoção
da glândula da terceira pálpebra) 5.
O diagnóstico da CCS é
feito através dos sinais clínicos que podem
variar desde uma hiperemia conjuntival associada a um corrimento
ocular mucoíde a mucopurulento (fase inicial da doença)
até a ulcerações centro-corneanas, descemetoceles,
estafilomas, prolápsos de íris, ceratite pigmentar
com neovascularização importante. Além
dos sinais apresentados, a CCS é detectada através
da utilização do teste lacrimal de Schirmer
que é realizado com a utilização de uma
tira de filtro de papel (Whatman paper 41) colocada no saco
conjuntival durante 1 minuto 4. Após este tempo, mede-se
com o auxílio de uma régua graduada a quantidade
de água absorvida pelo papel. A interpretação
dos resultados é feita da seguinte forma:
Valores
15 mm/min = produção normal
Valores
entre 11 a 14 mm/min = caracterizam uma CCS incipiente
Valores
entre 6 a 10 mm/min = CCS moderada
Valores
5 mm/min = severa CCS.
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| Foto 2: Teste de
Schirmer sendo realizado. Este deve ser o primeiro teste
a ser feito, pois a utilização de colírios
anestésicos e corantes podem alterar sua interpretação. |
O tratamento da CCS baseia-se na utilização
de lacrimomiméticos (lágrimas artificiais, soro
autólogo ou heterólogo), lacrimoestimulantes
colinérgicos (pilocarpina 1 a 2%), lacrimoestimulantes
imunomodulantes (ciclosporina), agentes antimicrobianos e
antiinflamatórios (esteroidais ou não) 4
.
A cirurgia de transposição
do ducto parotídeo está indicada nos casos aonde
a terapia, principalmente com a utilização de
ciclosporina, não surte um efeito desejado. Animais
com valores no teste de Schirmer de 0 – 2 mm/min possuem
menos de 50% de chance de apresentarem uma resposta favorável
à aplicação tópica de ciclosporina.
A experiência mostra que os pacientes estóicos
ou aqueles que não apresentarem uma resposta evidente
em 30 a 40 dias depois de iniciada a terapia tópica
ocular, ou seja, com notada diminuição dos sinais
de inflamação ocular e aumento da fase aquosa
do filme lacrimal, são grandes candidatos a cirurgia
6.
Observando-se a composição
básica do líquido salivar em relação
à lágrima, pode-se notar que a composição
é muito similar, sendo assim a saliva pode ser um excelente
substituto do filme lacrimal.
| Característica |
Lágrima |
Saliva |
| Ph |
5.3 – 7.8 |
5.2 – 8.4 |
| Osmolalidade |
Fisiológica |
Fisiológica |
| Lisozimas |
Presentes |
Presentes |
| Translucência |
Clara |
Clara |
| Total sólidos |
1.6 |
1.8 |
| Cinzas |
0.81 |
1.05 |
|
Tabela 1: Composição
da lágrima e da saliva em humanos. (Gellatt, KN –
1991)
Antes de iniciar-se a intervenção
cirúrgica, deve-se testar a funcionalidade da glândula
salivar cujo ducto será transposto. Tal procedimento
é feito através da instilação
de algumas gotas de colírio de atropina a 1% na língua.
A atropina apesar de ser uma droga parassimpatolítica
(diminuí a secreção salivar), atua topicamente
na boca como sialagogo por possuir gosto amargo, induzindo
assim a salivação 2.
Na presença de doença periodontal
importante deve-se realizar uma boa profilaxia dentária
com remoção das placas de tártaro, extração
de dentes comprometidos seriamente e antibiótico-terapia
por pelo menos 7 dias antes da cirurgia de transposição
do ducto.
Após a desinfecção
da mucosa oral com solução de iodo-povidine
ou clorexidine, a região lateral da face é preparada
para cirurgia asséptica. A papila oral do ducto da
glândula salivar parotídea localiza-se próximo
ao quarto dente pré-molar superior e deve ser canulada
utilizando-se um fio de nylon 2-0 para facilitar sua dissecção
6. É importante a utilização de um reparo
peri-papilar para facilitar seu manuseio e evitarem-se possíveis
traumas.
 |
| Foto 3: Localização
e canulação da papila do ducto da glândula
parótida. |
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| Foto 4: Dissecção
da papila. |
 |
| Foto 5: Ducto parotídeo
dissecado e reparado, exposto através de uma incisão
feita na pele da face lateral do paciente. Destaca-se
a importância da canulação para facilitar
a transposição. |
 |
| Foto 6: Ducto transposto
(ainda canulado) e suturado na região lateral do
globo ocular atrás da terceira pálpebra
utilizando-se fio vicryl 7-0. É importante evitar-se
o contato do material de sutura com a superfície
corneana para não causar traumas e ulcerações. |
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| Foto 7: 10 dias
após intervenção cirúrgica.
Nota-se diminuição significativa da inflamação
ocular. Teste de Schirmer de 21 mm/minuto. |
Os cuidados pós-operatórios
resumem-se a utilização de colírios com
antibiótico e antiinflamatórios, antibiótico
de amplo espectro via oral e colar elisabetano pro 10 dias
para evitar a intervenção do paciente na área
da cirurgia. Em alguns casos indica-se a utilização
do colírio de ciclosporina por mais 30 dias para reduzir
a irritação córneo-conjuntival por depósito
de minerais (possui atividade lubrificante, mucinogênica
e antiinflamatória). As complicações
pós-operatórias principais são deiscência,
infecção, estenose cicatricial do ducto transposto
e depósitos de cálcio na córnea. Os depósitos
podem ser controlados com agentes quelantes (EDTA 1 a 2%)
e lágrimas artificiais 5.
Referências bibliográficas:
1. GELATT, KIRK N.: Veterinary
Ophthalmology. 3 ed. Lippincott Willians & Wilkins,
1998.
2. HARDMAN, JOEL G., LIMBIRD, LEE E.
: Goodman & Gilman’s The Pharmacological
Basis Of Therapeutics. McGraw-Hill Medical Publishing
Division. Tenth Edition, 2001.
3. LIPOWITZ, Alan J., et al.: Complications
in Small Animal Surgery. Williams & Wilkins.
p. 76-77. 1996.
4. Magrane Basic Science Course
in Ophthalmology. University of Wisconsin –
Madison. Course Notes , 1998.
5. RAMSEY, DAVID T. et al. : Veterinary
Ophthalmology (lecture notes). 5o ed. Michigan State
University, 2000.
6. SLATTER, DOUGLAS. :The Lacrimal System.
Textbook of Small Animal Surgery. 2? ed.
W.B. Saunders, vol.2 , p. 1184-1194, 1996.
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