TUMORES ÓSSEOS EM PEQUENOS
ANIMAIS
BONE TUMORS AFFECTING SMALL ANIMALS
KLEINER, J.A.; SILVA, E.G.
Artigo Publicado
na Revista MedVep, v.1;n.3 – Jul/Set. - 2003
Resumo: Os tumores ósseos
são de ocorrência freqüente na clínica
de pequenos animais e dentre estes podemos destacar o Osteossarcoma,
Fibrossarcoma, Hemangiossarcoma, Tumor de células gigantes,
Lipossarcoma, Linfoma, Osteoma, Mieloma múltiplo e
Condrossarcoma. O osteossarcoma é a principal condição
neoplásica que afeta os ossos tanto do esqueleto apendicular
quanto do axial e ocorre tipicamente em cães de raças
de grande porte. O presente trabalho objetiva discorrer a
respeito das principais neoplasias ósseas observadas
principalmente em cães e gatos.
Palavras-chave: Pequenos animais; osso; neoplasia.
Abstract: Bone tumors
are frequently observed in the small animal practices and
among then one can point the Osteosarcoma, Fibrosarcoma, Hemangiosarcoma,
Giant cells tumor, Liposarcoma, Linfoma, Osteoma, Multiple
Myeloma and Chondrosarcoma. Osteosarcoma is the major neoplastic
condition affecting the bones of the apendicular skeleton
or axial and occurs more frequently in the giant breeds. This
article intends to review the most common neoplasias affecting
dogs and cats.
Keywords: Small animals; bone; neoplasia.
Introdução
O tumor ósseo, freqüentemente
observado em pequenos animais, é uma neoplasia que
afeta predominantemente raças de grande porte e animais
idosos, especialmente os caninos. O osteossarcoma é
tipo de tumor primário mais freqüente em cães,
descrito em 95% dos casos (DE MARTIN, 1997; JOHNSON, 2002).
Fibrossarcoma, hemangiossarcoma, tumor de células gigantes,
lipossarcoma, linfoma, osteoma, mieloma múltiplo, e
condrossarcoma respondem pelo restante, sendo que destes,
o condrossarcoma é relatado com uma maior freqüência
(McGLENNON, 1991; THOMSON, 1983).
Tumores ósseos primários
são raros em felinos em geral. Dentre eles, o osteossarcoma
é a neoplasia óssea mais comum, afetando primariamente
gatos adultos ou idosos, e com a predileção
pelo esqueleto apendicular (BITETTO, 1987; STIMSON, 2000).
O osteossarcoma ocorre principalmente
em cães de meia idade (média de 7 anos) e em
raças de porte grande ou gigante (não se observa
predileção racial), sendo que em 75% dos casos
acomete o esqueleto apendicular e os 25% restantes afetam
o esqueleto axial (LACRETA, 2002). Dentre as principais características
radiográficas observam-se padrões variando entre
lesões completamente osteolíticas e osteoblásticas,
líse cortical, proliferação óssea
periostal e aumento de tecidos moles . Embora uma quantia
menor que 5% dos cães acometidos apresentam metástases
pulmonares detectáveis pelo raio-x quando primeiramente
apresentados ao médico veterinário, 90% morrem
ou são eutanaziados devido a complicações
associadas a metástases pulmonares. O local de predileção
do aparecimento de osteossarcoma é a região
metafisária do úmero proximal, rádio
e ulna distal, fêmur distal e tíbia proximal,
podendo se expandir para ossos adjacentes com a sua evolução
(BURK, 1996). No intuito de se descobrir algo a respeito desta
disposição peculiar, a região do rádio
onde há predileção ao osteossarcoma foi
avaliada em cães sadios de diferentes portes, não
sendo evidenciada a presença de microlesões
ou áreas de remodelamento ósseo, o que sugere
que estas alterações, quando associadas, são
um fator de risco importante para a indução
de osteossarcoma (GELLASCH, 2002). Cães machos e fêmeas
tendem a ser mais acometidos pelo osteossarcoma apendicular
e axial, respectivamente. Estudos retrospectivos analisaram
cães de grande porte com osteossarcoma axial, e correlacionam
a raça do animal com o respectivo tempo de sobrevida,
concluindo que nos cães sem raça definida existe
um tempo de sobrevivência significativamente maior (DICHERSON,
2001).
| Tabela
1: |
Distribuição
aproximada dos tumores ósseos primários
em pequenos animais.
*= Exceto em osteossarcoma do esqueleto axial envolvendo
a mandíbula,
onde a evolução metastática é
mais lenta. |
| Tipos de Tumores |
Incidência
Relativa |
Atividade Metastática |
| OSTEOSSARCOMA |
90-95% |
-Pulmões e tecidos moles são rapidamente
afetados* -Metástases
ósseas ocorrem em um estágio tardio
-Incomum em gatos |
| CONDROSSARCOMA |
5-10% |
-Atividade metastática lenta -Incidência
desconhecida em gatos por ser rara a afecção |
| FIBROSSARCOMA |
0-5% |
-Atividade metastática mais lenta que
o osteossarcoma -Incidência
desconhecida em gatos |
HEMANGIOSSARCOMA
|
3-5%
|
-Atividade metastática alta, pode ocorrer
de forma multicêntrica, geralmente envolvendo
fígado e coração, em cães
e gatos. |
|
Embora o raio-x seja o método
mais utilizado para o diagnóstico de neoplasias ósseas,
pois no mínimo deve ser realizado um levantamento radiográfico
do animal, também é de extrema valia o uso de
outros recursos como a Magnificação Radiográfica
Computadorizada, Cintilografia, Tomografia Computadorizada
(TC) ou a Ressonância Magnética (RM), que mais
detalhadamente avaliam a neoplasia quanto a sua característica
e extensão (DAVIS, 2002).
A cintilografia é um método
eficiente e altamente sensível para a detecção
das lesões ósseas, no que se refere à
precocidade das informações obtidas. Este método
pode preceder em até 6 meses, a detecção
destas lesões, perante a radiologia, e da mesma forma,
se mostra eficiente para a avaliação de metástases
ósseas de outras neoplasias e permite uma diferenciação
geral entre distúrbios malignos e benignos, de acordo
com a atividade lesional presente, pois realiza um estudo
extremamente sensível identificando regiões
onde estão ocorrendo atividades osteoblásticas,
incluindo processos antiinflamatórios e infecciosos.
De tal forma, pode discriminar achados característicos
em certos tumores primários, onde há uma dificuldade
desta avaliação com o auxílio de outros
métodos (DE MARTIN, 1997; HENDLER, 1998). A TC ou a
RM podem prover informações essenciais para
se estabelecer um plano cirúrgico, por promover uma
visualização desejada da extensão de
tecidos moles envolvidos (LIPSITZ, 2001). Tais recursos citados
são de realização importante anteriormente
a uma amputação, pois tal medida diminui as
chances de ocorrer uma sub-estimação do comprimento
tumoral, que está associada a uma excisão cirúrgica
incompleta e recorrência local do tumor.
As lesões ósseas algumas
vezes podem ser difíceis de se encontrar, especialmente
quando não se tratam de simples fraturas e sim processos
tumorais, pois padrões mistos de lise e proliferação
óssea são freqüentemente observados, sendo
importante avaliarem-se vários parâmetros, como
por exemplo se a lesão é monostótica
(afeta apenas um osso) ou poliostótica (afeta vários
ossos) como observado em processos inflamatórios (WRIGLEY,
2000). Tumores afetando o esqueleto apendicular geralmente
cursam com claudicação e tumores axiais geralmente
se apresentam, à palpação, como uma tumefação
regional firme. Sinais de afecção sistêmica
como febre, anorexia ou perda de peso, são incomuns
quando em um estágio agudo da doença.
Quando suspeita-se de uma lesão
primária óssea neoplásica, deve-se realizar
um diagnóstico diferencial entre osteomielite bacteriana
ou fúngica, infarto ósseo, extensão direta
de tumores ósseos ou provenientes de tecidos moles,
osteopatia hipertrófica, hipervitaminose A, reações
periostais traumáticas e cistos ósseos aneurismais.
Deve ser ressaltada a importância de um amplo exame
clínico e radiológico, assim como da biópsia
excisional, pois são ferramentas chave para se alcançar
um diagnóstico conclusivo, especialmente em casos de
osteomielite fúngica e osteopatia hipertrófica,
pela similitude das alterações radiográficas
ósseas e periostais encontradas no osteossarcoma (LINDENBAUM,1984).
Demais neoplasias provenientes do tecido
ósseo, como o tumor de células gigantes, mieloma
múltiplo, linfoma e lipossarcoma, são afecções
raras mas de igual importância, entretanto serão
abordadas em um trabalho a parte. Uma alteração
inflamatória pode ser diferenciada através da
citologia, necessitando o veterinário de algumas habilidades
para tal, e levando também o citologista experiente
a realizar uma diferenciação entre vários
tipos tumorais, guiando os próximos passos a serem
realizados e ao mesmo tempo auxiliando a estabelecer um prognóstico.
Quando o diagnóstico citológico é inconclusivo,
necessita-se da confirmação histopatológica
(WELLMAN, 1990). Características clínicas, idade
do paciente e localização anatômica do
tumor são informações importantes a ser
passadas para o histopatologista, bem como o contato deste
com o cirurgião e o radiologista, no intuito de diminuir
os riscos de uma má interpretação da
característica proliferativa do tumor (LANG & SULZBACHER,
2001). A imunohistoquímica também pode ser utilizada
e é útil na diferenciação de tumores
com aparência histopatológica similar, como o
paracondroma, condroma, condrossarcoma mixóide, assim
como outras neoplasias em medicina veterinária (PEASE,
2002).
Mesmo quando inevitável, muitos
donos mostram uma relutância em aceitar a idéia
da amputação de algum membro do animal, e devem
ser informados da habilidade deste em se adaptar a locomoção
com o uso de três membros. Tal adaptação
ocorre com menos de um mês pós intervenção
cirúrgica na maioria dos cães, tempo muitas
vezes inferior ao esperado pelos proprietários (KIRPENSTEIJN,
1999).
Apesar da disposição característica
do osteossarcoma, este pode vir a acometer qualquer tecido,
tanto primaria quanto secundariamente. Sítios incomuns
também apresentam potencial metastático alto,
como o osteossarcoma proveniente da patela, que assim como
o da escápula, demonstra potencial agressivo e de comportamento
biológico similar ao de cães com a afecção
de localização apendicular (DALECK, 2002; LUCROY,
2001). As lesões metastáticas em ossos adjacentes,
chamadas “Skip Metastases”, tem um prognóstico
similar ou até mais grave que o associado a metástases
pulmonares (MOORE, 2000).
Felizmente a espécie felina apresenta
um baixo índice de metástases provenientes de
tumores ósseos, especialmente o osteossarcoma. Devido
a este fato, a amputação tem representado um
método de tratamento eficiente nos gatos com osteossarcoma
apendicular (LEVITT, 1989). Em um relato, 50% dos gatos afetados
estavam vivos 64 meses após a cirurgia, mostrando um
prognóstico mais favorável quando comparados
com os caninos. Os caninos são extremamente acometidos
por lesões metastáticas e nos cães de
pequeno porte temos uma percentagem 5 vezes maior do que nos
de grande porte (COOLEY, 1997).
As alterações metabólicas
em cães com osteossarcoma são evidentes, assim
como no ser humano. Sua perda energética é significativamente
maior antes e depois da cirurgia, sendo que no período
pós-operatório tais cães apresentam uma
taxa diminuída de síntese protéica, uma
perda excessiva de nitrogênio na urina e um aumento
do fluxo de glicose, em comparação com cães
sadios e jovens (MAZZAFERRO, 2001). Os parâmetros sorológicos
minerais de cães com osteossarcoma tendem a se distanciar
da normalidade. Geralmente a concentração de
cromo e ferro, assim como a capacidade de ligação
do ferro, encontram-se extremamente reduzidas, quando comparada
com cães sadios e o mesmo ocorre em relação
ao zinco, embora com menor diferença entre as concentrações
(KAZMIERSKI, 2001).
A atividade da fosfatase alcalina é
um fator importante a ser considerado pelos clínicos,
com o intuito de medir a agressividade da quimioterapia adjuvante,
pois relata-se que cães com atividades normais desta
e também da sua isoenzima óssea antes da quimioterapia
sobreviveram por um tempo significativamente maior que aqueles
nos quais tais enzimas se encontravam com atividade aumentada
(GARZOTTO, 2000) e estes casos devem ser minuciosamente avaliados
quanto a metástases tumorais, anteriormente ao estabelecimento
de qualquer protocolo terapêutico.
Tumores ósseos apendiculares
possuem uma pressão do líquido intersticial
significativamente aumentada e um fluxo sanguíneo diminuído,
em relação aos tecidos moles íntegros
adjacentes. Estes dois fatores ocasionam uma redução
na oxidação tecidual e podem chegar a impedir
a ação medicamentosa, sendo relevantes para
a formulação de estratégias para o tratamento
clínico de tais tumores (ZACHOS, 2001).
Pela característica de ser um
tumor altamente invasivo, o osteossarcoma causa após
um certo período uma obstrução tecidual
significativa, impedindo a drenagem linfática normal,
levando a formação de um edema por obstrução
linfática, facilmente visível devido ao inchaço
do membro e pelo sinal de Godet positivo.
O osteossarcoma é o tipo histológico
mais comum de sarcomas associados a fraturas, em especial
as que passaram por processos de consolidação
complicados, assim como fraturas cominutivas que cursam com
osteomielite, atraso na consolidação ou não-união.
Este tipo de sarcoma pode ser induzido pela presença
a longo prazo de um determinado tipo de implante metálico
ou enxerto cortical localizado no sítio da fratura
(FRANCO, 2002).
O condrossarcoma é o segundo tumor
ósseo primário mais comum entre caninos, respondendo
por aproximadamente 5% de todos os casos e é caracterizado
pela produção de matriz cartilaginosa sem a
evidência de osteóide, diferentemente do osteossarcoma.
Pode ser primário, afetando tanto a cavidade medular
quanto o periósteo, com predileção pelo
esqueleto axial e ossos chatos, ou secundário a massas
cartilaginosas pré-existentes. Possui tanto uma progressão
quanto uma freqüência metastática lenta,
em comparação com o osteossarcoma, mas pode
da mesma forma apresentar alterações obstrutivas
semelhantes. Incomum em gatos e apresenta predileção
por cães de grande porte e adultos, especialmente os
da raça Pastor Alemão e Boxer.
O hemangiossarcoma canino é uma
neoplasia rara, maligna e agressiva, com um prognóstico
desfavorável e acometendo mais o Pastor Alemão,
Dogue Alemão e Boxer (Figura). Seu acometimento em
ossos é menor que em 5% dos casos e a chance do animal
de já apresentar metástases na hora do diagnótico
é de 80% (PASTOR, 2002). Cirurgia e quimioterapia têm
um sucesso limitado no prolongamento do tempo e melhora da
qualidade de vida, com uma média máxima de sobrevida
de 5 meses após o procedimento cirúrgico (SORENMO,
2000). Possui a característica metastática de
envolver vários órgãos, podendo ser difícil
a diferenciação entre tumorações
primárias e secundárias.
O fibrossarcoma é o terceiro
tumor ósseo primário mais comum em cães,
e é característico por produzir uma matriz colagenosa,
sem evidência de osso ou cartilagem. A maioria dos fibrossarcomas
canina mostra um crescimento relativamente lento e as metástases
tendem a aparecer em um curso mais tardio da doença,
em comparação com o osteossarcoma (McGLENNON,
1991). Tem sido relatado tanto em felinos jovens e idosos,
produzindo uma típica lesão osteolítica
na região metafisária de ossos longos e caracterizada
pela ausência de neoformação óssea
periostal em conjunto com o aumento de tecidos moles (LEVITT,
1989).
O osteocondroma é um tumor benigno raro, geralmente
acomete animais jovens e podendo ocorrer em duas formas: simples
ou múltiplo. A forma múltipla tem sido chamada
de exostoses cartilaginosas múltiplas, pelo comportamento
biológico e histológico semelhante. A origem
de alguns osteocondromas provém de perturbações
anulares ou semianulares do anel pericondrial de fises metafisárias
de ossos longos e contribuem para um encurtamento do membro
assim como um padrão de deformidade angular simétrica
bilateral, como o que ocorre em crianças afetadas pela
osteocondromatose (MOZOS, 2002). Este tumor possui aparência
radiográfica benigna, é bem circunscrito e não
causa lise óssea ou proliferação periostal.
Apesar da disposição benigna, osteocondromas
e exostoses cartilaginosas múltiplas podem sofrer uma
transformação maligna para osteossarcoma ou
condrossarcoma (GREEN, 1999).
Outras alterações benignas
podem adquirir características malignas após
manipulação cirúrgica (ex: cistos ósseos),
sendo importante a realização de uma excisão
cirúrgica completa, quando possível, para eliminar
ou prorrogar a recorrência dos sinais clínicos
(BARNHART,2002).
Infelizmente os tumores ósseos primários também
podem ser encontrados em tecidos moles. O osteossarcoma primário
extra-esquelético acomete tanto o homem como o cão
e apresenta um comportamento biológico agressivo e
uma freqüência metastática que varia entre
60 a 85% em cães e um tempo de vida médio após
a cirurgia de 26 a 90 dias, variando de acordo com a localização
(THAMM, 2000). Segundo teorias a sua patogênese pode
ser uma metaplasia de tecido conectivo secundária a
uma irritação ou trauma, uma produção
proveniente de células mioepiteliais em tecido glandular
ou ainda uma infecção por Espirocerca lupi em
cães com osteossarcoma esofágico.
O osteossarcoma primário extra-esquelético
constitui uma pequena minoria dos casos vistos em cães,
relativa a 1% de todos os casos de osteossarcoma (STIMSON,
2000). Geralmente oacomete cães idosos, não
apresenta predisposição sexual e pode-se dizer
que os cães da raça Rottweiller e o Beagle são
os mais afetados (LANGENBACH, 1998). Em seres humanos afetados
com osteossarcoma extra-esquelético a ocorrência
é de 4,6% e a maioria tende a ocorrer em tecidos moles
e extremidades (PATNAIK, 1990). Extremamente raro em gatos,
a maior parte dos casos acometem o tecido subcutâneo,
com uma aparente prevalência por locais comumente utilizados
para vacinação, glândulas mamárias,
bulbo ocular e duodeno (HELDMANN, 2000). Nos cães,
possui predileção pela glândula mamária,
trato gastro-intestinal, tecidos subcutâneos e fígado,
mas há relatos em glândula salivar e tireóidea,
pulmão, rim, vesícula urinária, olhos
e mesentério (JOHNSON, 2002; STIMSON, 2000). A mineralização
de tecidos moles circunscritos à articulação
e sem evidência de lise óssea periarticular pode
indicar a presença de um osteossarcoma sinovial, embora
de raríssima freqüência, existe um relato
desta afecção em um canino e este foi o primeiro
relato de tal localização deste tumor em uma
espécie, e em tal caso, foi recomendado o diagnóstico
diferencial entre miosite ossificante, calcificação
secundária a degeneração tecidual, desequilíbrio
na concentração de cálcio e sarcoma de
células sinoviais (THAMM, 2000). Para o diagnóstico
definitivo de um osteossarcoma extra-esquelético, em
qualquer espécie, primeiramente deve ser realizada
uma busca excessiva por evidências de neoplasias ósseas
primárias.
A regressão espontânea
de tumores ósseos malignos primários podem ocorrer
mesmo sem o tratamento anti-neoplásico específico,
embora isto seja extremamente raro em animais, assim como
em seres humanos (MEHL, 2001).
A radioterapia é um método
bastante útil para o tratamento de osteossarcomas apendiculares
e axiais, assim como de outros tipos de neoplasias (GREEN,
2001). Pode ocasionar o alívio ou até uma remissão
da dor por longos períodos e o retardo no crescimento
neoplásico, sendo portanto o procedimento indicado
em casos onde há impossibilidade de excisão
cirúrgica tumoral (AAS, 1999). Apesar de existirem
casos de osteossarcoma induzido por radiação
em animais, a combinação com a da radioterapia
e cirurgia pode prolongar significativamente a sobrevida dos
pacientes, podendo, às vezes, ser curativa (DICKINSON,
2001).
A cisplatina é um agente quimioterápico
bem conhecido e tem o efeito de prolongar significativamente
os intervalos livres de doença, e conseqüentemente
a sobrevida do animal e é a droga de escolha para a
terapia do osteossarcoma. A administração é
feita na dose de 60-70 mg / m², via endovenosa a cada
21 dias num total de 4 a 6 secções. Como efeitos
colaterais pode-se citar a nefro ou ototoxicidade, distúrbios
gastrintestinais e mielosupressão. A Doxorrubicina
quando utilizada em conjunto com a cisplatina tem aumentado
a sobrevida dos pacientes. A dose utilizada é de 30
mg / m² (IV), a cada duas semanas e num total de 4 a
6 secções. A carboplatina também pode
ser associada às drogas acima na dose de 300 mg / m²
(IV) a cada 3 semanas (GUILHERMO, 1998; KIRPENSTEIJN, 2002).
Neoplasias ósseas benignas, como
o condroma, osteoma, fibroma ossificante e o osteocondroma,
são geralmente de lenta progressão e dependendo
da acessibilidade do tumor, uma ampla excisão cirúrgica
na maioria das vezes se mostra curativa.
Ao invés da amputação,
em casos de osteossarcoma apendicular não metastático,
tem sido realizada com relativo sucesso a ressecção
óssea com uso de enxerto homólogo através
de implante de tecido ósseo congelado (MORELLO, 2001).
Em 80 % dos cães tratados pela ressecção
óssea (com o uso de homo-enxerto ou não), juntamente
a um tratamento com cisplatina, pode-se obter uma adequada
função do membro operado. Esta técnica
é de importância fundamental para animais com
distúrbio neurológico ou ortopédico concomitante,
pois tal distúrbio não permitirá que
o animal caminhe adequadamente após a amputação
(JOHNSON, 2002).
Recentemente, uma técnica ainda
mais inovadora foi descrita pelo Colégio Americano
de Cirurgiões Veterinários para o tratamento
do osteossarcoma apendicular. Trata-se de uma ressecção
e pasteurização da área neoplásica
afetada, através da permanência do enxerto em
uma caixa estéril impermeável em meio de solução
salina pré-aquecida a 65°C e imersa em água
por 40 minutos, a uma temperatura de 65°C. Obtêm-se
então uma esterilização com morte das
células tumorais, propiciando a este enxerto autólogo
um comportamento similar a um enxerto verdadeiro. Com o tratamento
concomitante de cisplatina, foi apresentado nestes casos um
período livre de alterações de 56 meses
(BURACCO, 2002).
O estudo dos mecanismos metastáticos
tem levado ao desenvolvimento de novas formas de tratamento
com o intuito de retardar ou inibir a proliferação
tumoral. Uma delas é um moderno sistema de quimioterapia
que inclui várias abordagens, podendo ser realizadas
junto ou separadamente. Dentre estas, podem ser citadas: Quimioterapia
e imunoterapia realizada por inalação ou intracavitária
nos casos de metástases pulmonares do osteossarcoma;
o uso de agentes anti-metastáticos como os inibidores
de angiogênese; Inibidores da matriz metaloproteinase,
que é uma enzima que regula os tecidos de suporte dos
vasos sanguíneos; modificações nutricionais
e, finalmente, terapia genética (CLIFFORD, 2000).
Através de pesquisas recentes
foi possível o isolamento de potentes polissacarídeos
a partir da parede celular de várias bactérias
e tais substâncias, que são derivados do peptídeo
muramil, têm a capacidade de melhorar a resposta imune
do animal, o qual identifica tais peptídeos como produtos
bacterianos e intensifica o sistema imunológico sendo
assim, tanto os macrófagos citotóxicos quanto
a imunidade humoral são estimulados e passam a efetuar
uma ação tumoricida, originando também
uma elevada secreção de citocinas, incluindo
o fator alfa de necrose tumoral, as interleucinas (IL)-1,
IL-6 e IL-12, sendo esta última responsável
pelo aumento natural na atividade das células T e um
potente inibidor da angiogênese que atua na matriz metaloproteinase
(KLEINARMAN, 1995; GYORFFY, 2001; HAUCK, 2002). Tais mecanismos
irão ajudar a destruir células tumorais resistentes
a quimioterapia, se mostrando como um importante passo frente
à heterogeneidade do comportamento biológico
metastático (KILLION, 1998).
Cães que sofreram amputação
completa e receberam estes polissacarídeos juntamente
com cisplatina sobreviveram por um tempo 50% maior do que
os que foram medicados após a cirurgia apenas com a
cisplatina (KURZMAN, 1995).
Conclusão
Nos últimos anos, estudos constantes
têm sido realizados para se chegar à perfeita
abordagem clínica ou quimioterápica e cirúrgica,
em prol da diminuição da incidência de
metástases. A medicina humana tem sido um órgão
onipresente na pesquisa do tratamento mais eficiente para
o osteossarcoma em cães, pois esta também é
a neoplasia primária mais comum em seres humanos, apresentando
uma incidência de 40 a 50 vezes maior que nos canídeos.
Tumores espontâneos em animais de companhia oferecem
uma grandiosa oportunidade para o estudo da biologia e terapêutica
do câncer em seres humanos, pela similitude de parâmetros
biológicos e histológicos, localização,
resposta a agentes citotóxicos, entre outros (MENDOZA,
1998; VAIL, 2000).
Embora muitas das novas abordagens estão
ainda sob pesquisa e revisão, o uso da terapia múltipla,
incorporando tratamentos inovadores, pode oferecer a melhor
opção terapêutica principalmente para
animais afetados por neoplasias ósseas cujo prognóstico
é extremamente desfavorável, como o hemangiossarcoma
canino.
 |
 |
| Figura 1 e 2:
Escapula direita com face medial apresentando
destruição de osso cortical, acompanhada
por uma massa óssea periostal neoformada, irregular
e expansiva; lise óssea periostal formando uma
depressão importante. Alterações
típicas de osteossarcoma canino. Osso contra-lateral
com aspecto normal (fig.2). |
 |
 |
| Figura 3 e 4:
Proliferação óssea bem definida
de forma irradiada, envolvendo a região distal
do rádio. Projeções látero-lateral
(fig.3) e crânio-caudal (fig.4) |
 |
Figura 5:
Exemplo de um caso de hemangiossarcoma ósseo
apresentando uma lesão altamente destrutiva e com
presença de calcificação dos tecidos
moles adjacentes. |
 |
Figura 6:
Osteossarcoma em um gato induzido pela presença
de material utilizado para redução de fratura
umeral. Nota-se a extensa proliferação do
tumor e a presnça de um fio de cerclagem tipo Kirschner. |
 |
Figura 7:
Edema causado por obstrução linfática
do membro posterior de um cão da raça Rottweiler,
comumente observado nos casos de osteossarcoma. Nota-se
também a presença de extensa ulceração
dérmica. (Cortesia da Profª. Dr. Paula Diniz
Galera UPIS/ Brasília-D.F) |
 |
Figura 8:
Rádio e ulna de um canino acometidos por
Osteopatia Hipertrófica ou Acropaquia. Notam-se
áreas de proliferação periostal,
principalmente na extremidade dos membros, o que diferencia
esta alteração inflamatória externa
de uma lesão com características tumorais.
(Cortesia Prof. Dr. Êrno Tury, UPIS, Brasília-D.F.
). |
 |
Figura 9:
Osteossarcoma envolvendo a região da cabeça
umeral de um cão da raça Rottweiler. Nota-se
também uma extensa infiltração metastática
na região torácica envolvendo o parênquima
pulmonar. (Cortesia Prof. Dr. João Kleiner Neto,
HVSB – Curitiba, PR). |
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