Dr. João Alfredo Kleiner - DVM, MSc.
 
 

TUMORES ÓSSEOS EM PEQUENOS ANIMAIS

BONE TUMORS AFFECTING SMALL ANIMALS

KLEINER, J.A.; SILVA, E.G.

Artigo Publicado na Revista MedVep, v.1;n.3 – Jul/Set. - 2003

Resumo: Os tumores ósseos são de ocorrência freqüente na clínica de pequenos animais e dentre estes podemos destacar o Osteossarcoma, Fibrossarcoma, Hemangiossarcoma, Tumor de células gigantes, Lipossarcoma, Linfoma, Osteoma, Mieloma múltiplo e Condrossarcoma. O osteossarcoma é a principal condição neoplásica que afeta os ossos tanto do esqueleto apendicular quanto do axial e ocorre tipicamente em cães de raças de grande porte. O presente trabalho objetiva discorrer a respeito das principais neoplasias ósseas observadas principalmente em cães e gatos.
Palavras-chave: Pequenos animais; osso; neoplasia.

Abstract: Bone tumors are frequently observed in the small animal practices and among then one can point the Osteosarcoma, Fibrosarcoma, Hemangiosarcoma, Giant cells tumor, Liposarcoma, Linfoma, Osteoma, Multiple Myeloma and Chondrosarcoma. Osteosarcoma is the major neoplastic condition affecting the bones of the apendicular skeleton or axial and occurs more frequently in the giant breeds. This article intends to review the most common neoplasias affecting dogs and cats.
Keywords: Small animals; bone; neoplasia.

Introdução

O tumor ósseo, freqüentemente observado em pequenos animais, é uma neoplasia que afeta predominantemente raças de grande porte e animais idosos, especialmente os caninos. O osteossarcoma é tipo de tumor primário mais freqüente em cães, descrito em 95% dos casos (DE MARTIN, 1997; JOHNSON, 2002). Fibrossarcoma, hemangiossarcoma, tumor de células gigantes, lipossarcoma, linfoma, osteoma, mieloma múltiplo, e condrossarcoma respondem pelo restante, sendo que destes, o condrossarcoma é relatado com uma maior freqüência (McGLENNON, 1991; THOMSON, 1983).

Tumores ósseos primários são raros em felinos em geral. Dentre eles, o osteossarcoma é a neoplasia óssea mais comum, afetando primariamente gatos adultos ou idosos, e com a predileção pelo esqueleto apendicular (BITETTO, 1987; STIMSON, 2000).

O osteossarcoma ocorre principalmente em cães de meia idade (média de 7 anos) e em raças de porte grande ou gigante (não se observa predileção racial), sendo que em 75% dos casos acomete o esqueleto apendicular e os 25% restantes afetam o esqueleto axial (LACRETA, 2002). Dentre as principais características radiográficas observam-se padrões variando entre lesões completamente osteolíticas e osteoblásticas, líse cortical, proliferação óssea periostal e aumento de tecidos moles . Embora uma quantia menor que 5% dos cães acometidos apresentam metástases pulmonares detectáveis pelo raio-x quando primeiramente apresentados ao médico veterinário, 90% morrem ou são eutanaziados devido a complicações associadas a metástases pulmonares. O local de predileção do aparecimento de osteossarcoma é a região metafisária do úmero proximal, rádio e ulna distal, fêmur distal e tíbia proximal, podendo se expandir para ossos adjacentes com a sua evolução (BURK, 1996). No intuito de se descobrir algo a respeito desta disposição peculiar, a região do rádio onde há predileção ao osteossarcoma foi avaliada em cães sadios de diferentes portes, não sendo evidenciada a presença de microlesões ou áreas de remodelamento ósseo, o que sugere que estas alterações, quando associadas, são um fator de risco importante para a indução de osteossarcoma (GELLASCH, 2002). Cães machos e fêmeas tendem a ser mais acometidos pelo osteossarcoma apendicular e axial, respectivamente. Estudos retrospectivos analisaram cães de grande porte com osteossarcoma axial, e correlacionam a raça do animal com o respectivo tempo de sobrevida, concluindo que nos cães sem raça definida existe um tempo de sobrevivência significativamente maior (DICHERSON, 2001).

Tabela 1: Distribuição aproximada dos tumores ósseos primários em pequenos animais.
*= Exceto em osteossarcoma do esqueleto axial envolvendo a mandíbula,
onde a evolução metastática é mais lenta.
Tipos de Tumores Incidência Relativa Atividade Metastática
OSTEOSSARCOMA 90-95% -Pulmões e tecidos moles são rapidamente afetados*
   -Metástases ósseas ocorrem em um estágio tardio
   -Incomum em gatos
CONDROSSARCOMA 5-10% -Atividade metastática lenta
   -Incidência desconhecida em gatos por ser rara a afecção
FIBROSSARCOMA 0-5% -Atividade metastática mais lenta que o osteossarcoma
   -Incidência desconhecida em gatos
HEMANGIOSSARCOMA
3-5%
-Atividade metastática alta, pode ocorrer de forma multicêntrica, geralmente envolvendo fígado e coração, em cães e gatos.

Embora o raio-x seja o método mais utilizado para o diagnóstico de neoplasias ósseas, pois no mínimo deve ser realizado um levantamento radiográfico do animal, também é de extrema valia o uso de outros recursos como a Magnificação Radiográfica Computadorizada, Cintilografia, Tomografia Computadorizada (TC) ou a Ressonância Magnética (RM), que mais detalhadamente avaliam a neoplasia quanto a sua característica e extensão (DAVIS, 2002).

A cintilografia é um método eficiente e altamente sensível para a detecção das lesões ósseas, no que se refere à precocidade das informações obtidas. Este método pode preceder em até 6 meses, a detecção destas lesões, perante a radiologia, e da mesma forma, se mostra eficiente para a avaliação de metástases ósseas de outras neoplasias e permite uma diferenciação geral entre distúrbios malignos e benignos, de acordo com a atividade lesional presente, pois realiza um estudo extremamente sensível identificando regiões onde estão ocorrendo atividades osteoblásticas, incluindo processos antiinflamatórios e infecciosos. De tal forma, pode discriminar achados característicos em certos tumores primários, onde há uma dificuldade desta avaliação com o auxílio de outros métodos (DE MARTIN, 1997; HENDLER, 1998). A TC ou a RM podem prover informações essenciais para se estabelecer um plano cirúrgico, por promover uma visualização desejada da extensão de tecidos moles envolvidos (LIPSITZ, 2001). Tais recursos citados são de realização importante anteriormente a uma amputação, pois tal medida diminui as chances de ocorrer uma sub-estimação do comprimento tumoral, que está associada a uma excisão cirúrgica incompleta e recorrência local do tumor.

As lesões ósseas algumas vezes podem ser difíceis de se encontrar, especialmente quando não se tratam de simples fraturas e sim processos tumorais, pois padrões mistos de lise e proliferação óssea são freqüentemente observados, sendo importante avaliarem-se vários parâmetros, como por exemplo se a lesão é monostótica (afeta apenas um osso) ou poliostótica (afeta vários ossos) como observado em processos inflamatórios (WRIGLEY, 2000). Tumores afetando o esqueleto apendicular geralmente cursam com claudicação e tumores axiais geralmente se apresentam, à palpação, como uma tumefação regional firme. Sinais de afecção sistêmica como febre, anorexia ou perda de peso, são incomuns quando em um estágio agudo da doença.

Quando suspeita-se de uma lesão primária óssea neoplásica, deve-se realizar um diagnóstico diferencial entre osteomielite bacteriana ou fúngica, infarto ósseo, extensão direta de tumores ósseos ou provenientes de tecidos moles, osteopatia hipertrófica, hipervitaminose A, reações
periostais traumáticas e cistos ósseos aneurismais. Deve ser ressaltada a importância de um amplo exame clínico e radiológico, assim como da biópsia excisional, pois são ferramentas chave para se alcançar um diagnóstico conclusivo, especialmente em casos de osteomielite fúngica e osteopatia hipertrófica, pela similitude das alterações radiográficas ósseas e periostais encontradas no osteossarcoma (LINDENBAUM,1984).

Demais neoplasias provenientes do tecido ósseo, como o tumor de células gigantes, mieloma múltiplo, linfoma e lipossarcoma, são afecções raras mas de igual importância, entretanto serão abordadas em um trabalho a parte. Uma alteração inflamatória pode ser diferenciada através da citologia, necessitando o veterinário de algumas habilidades para tal, e levando também o citologista experiente a realizar uma diferenciação entre vários tipos tumorais, guiando os próximos passos a serem realizados e ao mesmo tempo auxiliando a estabelecer um prognóstico. Quando o diagnóstico citológico é inconclusivo, necessita-se da confirmação histopatológica (WELLMAN, 1990). Características clínicas, idade do paciente e localização anatômica do tumor são informações importantes a ser passadas para o histopatologista, bem como o contato deste com o cirurgião e o radiologista, no intuito de diminuir os riscos de uma má interpretação da característica proliferativa do tumor (LANG & SULZBACHER, 2001). A imunohistoquímica também pode ser utilizada e é útil na diferenciação de tumores com aparência histopatológica similar, como o paracondroma, condroma, condrossarcoma mixóide, assim como outras neoplasias em medicina veterinária (PEASE, 2002).

Mesmo quando inevitável, muitos donos mostram uma relutância em aceitar a idéia da amputação de algum membro do animal, e devem ser informados da habilidade deste em se adaptar a locomoção com o uso de três membros. Tal adaptação ocorre com menos de um mês pós intervenção cirúrgica na maioria dos cães, tempo muitas vezes inferior ao esperado pelos proprietários (KIRPENSTEIJN, 1999).

Apesar da disposição característica do osteossarcoma, este pode vir a acometer qualquer tecido, tanto primaria quanto secundariamente. Sítios incomuns também apresentam potencial metastático alto, como o osteossarcoma proveniente da patela, que assim como o da escápula, demonstra potencial agressivo e de comportamento biológico similar ao de cães com a afecção de localização apendicular (DALECK, 2002; LUCROY, 2001). As lesões metastáticas em ossos adjacentes, chamadas “Skip Metastases”, tem um prognóstico similar ou até mais grave que o associado a metástases pulmonares (MOORE, 2000).

Felizmente a espécie felina apresenta um baixo índice de metástases provenientes de tumores ósseos, especialmente o osteossarcoma. Devido a este fato, a amputação tem representado um método de tratamento eficiente nos gatos com osteossarcoma apendicular (LEVITT, 1989). Em um relato, 50% dos gatos afetados estavam vivos 64 meses após a cirurgia, mostrando um prognóstico mais favorável quando comparados com os caninos. Os caninos são extremamente acometidos por lesões metastáticas e nos cães de pequeno porte temos uma percentagem 5 vezes maior do que nos de grande porte (COOLEY, 1997).

As alterações metabólicas em cães com osteossarcoma são evidentes, assim como no ser humano. Sua perda energética é significativamente maior antes e depois da cirurgia, sendo que no período pós-operatório tais cães apresentam uma taxa diminuída de síntese protéica, uma perda excessiva de nitrogênio na urina e um aumento do fluxo de glicose, em comparação com cães sadios e jovens (MAZZAFERRO, 2001). Os parâmetros sorológicos minerais de cães com osteossarcoma tendem a se distanciar da normalidade. Geralmente a concentração de cromo e ferro, assim como a capacidade de ligação do ferro, encontram-se extremamente reduzidas, quando comparada com cães sadios e o mesmo ocorre em relação ao zinco, embora com menor diferença entre as concentrações (KAZMIERSKI, 2001).

A atividade da fosfatase alcalina é um fator importante a ser considerado pelos clínicos, com o intuito de medir a agressividade da quimioterapia adjuvante, pois relata-se que cães com atividades normais desta e também da sua isoenzima óssea antes da quimioterapia sobreviveram por um tempo significativamente maior que aqueles nos quais tais enzimas se encontravam com atividade aumentada (GARZOTTO, 2000) e estes casos devem ser minuciosamente avaliados quanto a metástases tumorais, anteriormente ao estabelecimento de qualquer protocolo terapêutico.

Tumores ósseos apendiculares possuem uma pressão do líquido intersticial significativamente aumentada e um fluxo sanguíneo diminuído, em relação aos tecidos moles íntegros adjacentes. Estes dois fatores ocasionam uma redução na oxidação tecidual e podem chegar a impedir a ação medicamentosa, sendo relevantes para a formulação de estratégias para o tratamento clínico de tais tumores (ZACHOS, 2001).

Pela característica de ser um tumor altamente invasivo, o osteossarcoma causa após um certo período uma obstrução tecidual significativa, impedindo a drenagem linfática normal, levando a formação de um edema por obstrução linfática, facilmente visível devido ao inchaço do membro e pelo sinal de Godet positivo.

O osteossarcoma é o tipo histológico mais comum de sarcomas associados a fraturas, em especial as que passaram por processos de consolidação complicados, assim como fraturas cominutivas que cursam com osteomielite, atraso na consolidação ou não-união. Este tipo de sarcoma pode ser induzido pela presença a longo prazo de um determinado tipo de implante metálico ou enxerto cortical localizado no sítio da fratura (FRANCO, 2002).

O condrossarcoma é o segundo tumor ósseo primário mais comum entre caninos, respondendo por aproximadamente 5% de todos os casos e é caracterizado pela produção de matriz cartilaginosa sem a evidência de osteóide, diferentemente do osteossarcoma. Pode ser primário, afetando tanto a cavidade medular quanto o periósteo, com predileção pelo esqueleto axial e ossos chatos, ou secundário a massas cartilaginosas pré-existentes. Possui tanto uma progressão quanto uma freqüência metastática lenta, em comparação com o osteossarcoma, mas pode da mesma forma apresentar alterações obstrutivas semelhantes. Incomum em gatos e apresenta predileção por cães de grande porte e adultos, especialmente os da raça Pastor Alemão e Boxer.

O hemangiossarcoma canino é uma neoplasia rara, maligna e agressiva, com um prognóstico desfavorável e acometendo mais o Pastor Alemão, Dogue Alemão e Boxer (Figura). Seu acometimento em ossos é menor que em 5% dos casos e a chance do animal de já apresentar metástases na hora do diagnótico é de 80% (PASTOR, 2002). Cirurgia e quimioterapia têm um sucesso limitado no prolongamento do tempo e melhora da qualidade de vida, com uma média máxima de sobrevida de 5 meses após o procedimento cirúrgico (SORENMO, 2000). Possui a característica metastática de envolver vários órgãos, podendo ser difícil a diferenciação entre tumorações primárias e secundárias.

O fibrossarcoma é o terceiro tumor ósseo primário mais comum em cães, e é característico por produzir uma matriz colagenosa, sem evidência de osso ou cartilagem. A maioria dos fibrossarcomas canina mostra um crescimento relativamente lento e as metástases tendem a aparecer em um curso mais tardio da doença, em comparação com o osteossarcoma (McGLENNON, 1991). Tem sido relatado tanto em felinos jovens e idosos, produzindo uma típica lesão osteolítica na região metafisária de ossos longos e caracterizada pela ausência de neoformação óssea periostal em conjunto com o aumento de tecidos moles (LEVITT, 1989).
O osteocondroma é um tumor benigno raro, geralmente acomete animais jovens e podendo ocorrer em duas formas: simples ou múltiplo. A forma múltipla tem sido chamada de exostoses cartilaginosas múltiplas, pelo comportamento biológico e histológico semelhante. A origem de alguns osteocondromas provém de perturbações anulares ou semianulares do anel pericondrial de fises metafisárias de ossos longos e contribuem para um encurtamento do membro assim como um padrão de deformidade angular simétrica bilateral, como o que ocorre em crianças afetadas pela osteocondromatose (MOZOS, 2002). Este tumor possui aparência radiográfica benigna, é bem circunscrito e não causa lise óssea ou proliferação periostal. Apesar da disposição benigna, osteocondromas e exostoses cartilaginosas múltiplas podem sofrer uma transformação maligna para osteossarcoma ou condrossarcoma (GREEN, 1999).

Outras alterações benignas podem adquirir características malignas após manipulação cirúrgica (ex: cistos ósseos), sendo importante a realização de uma excisão cirúrgica completa, quando possível, para eliminar ou prorrogar a recorrência dos sinais clínicos (BARNHART,2002).
Infelizmente os tumores ósseos primários também podem ser encontrados em tecidos moles. O osteossarcoma primário extra-esquelético acomete tanto o homem como o cão e apresenta um comportamento biológico agressivo e uma freqüência metastática que varia entre 60 a 85% em cães e um tempo de vida médio após a cirurgia de 26 a 90 dias, variando de acordo com a localização (THAMM, 2000). Segundo teorias a sua patogênese pode ser uma metaplasia de tecido conectivo secundária a uma irritação ou trauma, uma produção proveniente de células mioepiteliais em tecido glandular ou ainda uma infecção por Espirocerca lupi em cães com osteossarcoma esofágico.

O osteossarcoma primário extra-esquelético constitui uma pequena minoria dos casos vistos em cães, relativa a 1% de todos os casos de osteossarcoma (STIMSON, 2000). Geralmente oacomete cães idosos, não apresenta predisposição sexual e pode-se dizer que os cães da raça Rottweiller e o Beagle são os mais afetados (LANGENBACH, 1998). Em seres humanos afetados com osteossarcoma extra-esquelético a ocorrência é de 4,6% e a maioria tende a ocorrer em tecidos moles e extremidades (PATNAIK, 1990). Extremamente raro em gatos, a maior parte dos casos acometem o tecido subcutâneo, com uma aparente prevalência por locais comumente utilizados para vacinação, glândulas mamárias, bulbo ocular e duodeno (HELDMANN, 2000). Nos cães, possui predileção pela glândula mamária, trato gastro-intestinal, tecidos subcutâneos e fígado, mas há relatos em glândula salivar e tireóidea, pulmão, rim, vesícula urinária, olhos e mesentério (JOHNSON, 2002; STIMSON, 2000). A mineralização de tecidos moles circunscritos à articulação e sem evidência de lise óssea periarticular pode indicar a presença de um osteossarcoma sinovial, embora de raríssima freqüência, existe um relato desta afecção em um canino e este foi o primeiro relato de tal localização deste tumor em uma espécie, e em tal caso, foi recomendado o diagnóstico diferencial entre miosite ossificante, calcificação secundária a degeneração tecidual, desequilíbrio na concentração de cálcio e sarcoma de células sinoviais (THAMM, 2000). Para o diagnóstico definitivo de um osteossarcoma extra-esquelético, em qualquer espécie, primeiramente deve ser realizada uma busca excessiva por evidências de neoplasias ósseas primárias.

A regressão espontânea de tumores ósseos malignos primários podem ocorrer mesmo sem o tratamento anti-neoplásico específico, embora isto seja extremamente raro em animais, assim como em seres humanos (MEHL, 2001).

A radioterapia é um método bastante útil para o tratamento de osteossarcomas apendiculares e axiais, assim como de outros tipos de neoplasias (GREEN, 2001). Pode ocasionar o alívio ou até uma remissão da dor por longos períodos e o retardo no crescimento neoplásico, sendo portanto o procedimento indicado em casos onde há impossibilidade de excisão cirúrgica tumoral (AAS, 1999). Apesar de existirem casos de osteossarcoma induzido por radiação em animais, a combinação com a da radioterapia e cirurgia pode prolongar significativamente a sobrevida dos pacientes, podendo, às vezes, ser curativa (DICKINSON, 2001).

A cisplatina é um agente quimioterápico bem conhecido e tem o efeito de prolongar significativamente os intervalos livres de doença, e conseqüentemente a sobrevida do animal e é a droga de escolha para a terapia do osteossarcoma. A administração é feita na dose de 60-70 mg / m², via endovenosa a cada 21 dias num total de 4 a 6 secções. Como efeitos colaterais pode-se citar a nefro ou ototoxicidade, distúrbios gastrintestinais e mielosupressão. A Doxorrubicina quando utilizada em conjunto com a cisplatina tem aumentado a sobrevida dos pacientes. A dose utilizada é de 30 mg / m² (IV), a cada duas semanas e num total de 4 a 6 secções. A carboplatina também pode ser associada às drogas acima na dose de 300 mg / m² (IV) a cada 3 semanas (GUILHERMO, 1998; KIRPENSTEIJN, 2002).

Neoplasias ósseas benignas, como o condroma, osteoma, fibroma ossificante e o osteocondroma, são geralmente de lenta progressão e dependendo da acessibilidade do tumor, uma ampla excisão cirúrgica na maioria das vezes se mostra curativa.

Ao invés da amputação, em casos de osteossarcoma apendicular não metastático, tem sido realizada com relativo sucesso a ressecção óssea com uso de enxerto homólogo através de implante de tecido ósseo congelado (MORELLO, 2001). Em 80 % dos cães tratados pela ressecção óssea (com o uso de homo-enxerto ou não), juntamente a um tratamento com cisplatina, pode-se obter uma adequada função do membro operado. Esta técnica é de importância fundamental para animais com distúrbio neurológico ou ortopédico concomitante, pois tal distúrbio não permitirá que o animal caminhe adequadamente após a amputação (JOHNSON, 2002).

Recentemente, uma técnica ainda mais inovadora foi descrita pelo Colégio Americano de Cirurgiões Veterinários para o tratamento do osteossarcoma apendicular. Trata-se de uma ressecção e pasteurização da área neoplásica afetada, através da permanência do enxerto em uma caixa estéril impermeável em meio de solução salina pré-aquecida a 65°C e imersa em água por 40 minutos, a uma temperatura de 65°C. Obtêm-se então uma esterilização com morte das células tumorais, propiciando a este enxerto autólogo um comportamento similar a um enxerto verdadeiro. Com o tratamento concomitante de cisplatina, foi apresentado nestes casos um período livre de alterações de 56 meses (BURACCO, 2002).

O estudo dos mecanismos metastáticos tem levado ao desenvolvimento de novas formas de tratamento com o intuito de retardar ou inibir a proliferação tumoral. Uma delas é um moderno sistema de quimioterapia que inclui várias abordagens, podendo ser realizadas junto ou separadamente. Dentre estas, podem ser citadas: Quimioterapia e imunoterapia realizada por inalação ou intracavitária nos casos de metástases pulmonares do osteossarcoma; o uso de agentes anti-metastáticos como os inibidores de angiogênese; Inibidores da matriz metaloproteinase, que é uma enzima que regula os tecidos de suporte dos vasos sanguíneos; modificações nutricionais e, finalmente, terapia genética (CLIFFORD, 2000).

Através de pesquisas recentes foi possível o isolamento de potentes polissacarídeos a partir da parede celular de várias bactérias e tais substâncias, que são derivados do peptídeo muramil, têm a capacidade de melhorar a resposta imune do animal, o qual identifica tais peptídeos como produtos bacterianos e intensifica o sistema imunológico sendo assim, tanto os macrófagos citotóxicos quanto a imunidade humoral são estimulados e passam a efetuar uma ação tumoricida, originando também uma elevada secreção de citocinas, incluindo o fator alfa de necrose tumoral, as interleucinas (IL)-1, IL-6 e IL-12, sendo esta última responsável pelo aumento natural na atividade das células T e um potente inibidor da angiogênese que atua na matriz metaloproteinase (KLEINARMAN, 1995; GYORFFY, 2001; HAUCK, 2002). Tais mecanismos irão ajudar a destruir células tumorais resistentes a quimioterapia, se mostrando como um importante passo frente à heterogeneidade do comportamento biológico metastático (KILLION, 1998).

Cães que sofreram amputação completa e receberam estes polissacarídeos juntamente com cisplatina sobreviveram por um tempo 50% maior do que os que foram medicados após a cirurgia apenas com a cisplatina (KURZMAN, 1995).

Conclusão

Nos últimos anos, estudos constantes têm sido realizados para se chegar à perfeita abordagem clínica ou quimioterápica e cirúrgica, em prol da diminuição da incidência de metástases. A medicina humana tem sido um órgão onipresente na pesquisa do tratamento mais eficiente para o osteossarcoma em cães, pois esta também é a neoplasia primária mais comum em seres humanos, apresentando uma incidência de 40 a 50 vezes maior que nos canídeos. Tumores espontâneos em animais de companhia oferecem uma grandiosa oportunidade para o estudo da biologia e terapêutica do câncer em seres humanos, pela similitude de parâmetros biológicos e histológicos, localização, resposta a agentes citotóxicos, entre outros (MENDOZA, 1998; VAIL, 2000).

Embora muitas das novas abordagens estão ainda sob pesquisa e revisão, o uso da terapia múltipla, incorporando tratamentos inovadores, pode oferecer a melhor opção terapêutica principalmente para animais afetados por neoplasias ósseas cujo prognóstico é extremamente desfavorável, como o hemangiossarcoma canino.

Figura 1 e 2: Escapula direita com face medial apresentando destruição de osso cortical, acompanhada por uma massa óssea periostal neoformada, irregular e expansiva; lise óssea periostal formando uma depressão importante. Alterações típicas de osteossarcoma canino. Osso contra-lateral com aspecto normal (fig.2).

 

Figura 3 e 4: Proliferação óssea bem definida de forma irradiada, envolvendo a região distal do rádio. Projeções látero-lateral (fig.3) e crânio-caudal (fig.4)

 

Figura 5: Exemplo de um caso de hemangiossarcoma ósseo apresentando uma lesão altamente destrutiva e com presença de calcificação dos tecidos moles adjacentes.

 

Figura 6: Osteossarcoma em um gato induzido pela presença de material utilizado para redução de fratura umeral. Nota-se a extensa proliferação do tumor e a presnça de um fio de cerclagem tipo Kirschner.

 

Figura 7: Edema causado por obstrução linfática do membro posterior de um cão da raça Rottweiler, comumente observado nos casos de osteossarcoma. Nota-se também a presença de extensa ulceração dérmica. (Cortesia da Profª. Dr. Paula Diniz Galera UPIS/ Brasília-D.F)

 

Figura 8: Rádio e ulna de um canino acometidos por Osteopatia Hipertrófica ou Acropaquia. Notam-se áreas de proliferação periostal, principalmente na extremidade dos membros, o que diferencia esta alteração inflamatória externa de uma lesão com características tumorais. (Cortesia Prof. Dr. Êrno Tury, UPIS, Brasília-D.F. ).

 

Figura 9: Osteossarcoma envolvendo a região da cabeça umeral de um cão da raça Rottweiler. Nota-se também uma extensa infiltração metastática na região torácica envolvendo o parênquima pulmonar. (Cortesia Prof. Dr. João Kleiner Neto, HVSB – Curitiba, PR).

 

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