Dr. João Alfredo Kleiner - DVM, MSc.
 
..Curitiba, 23-Jan-2006 14:17
: : Discussão :


Segundo GELATT (1975), HOLLY (1977), SAITO (1999) a boa saúde do bulbo ocular está diretamente relacionada não só com a produção adequada do filme lacrimal, mas também com uma drenagem eficaz da lágrima.

HOLLY (1977), DOANE (1981), LEMP (1992), EVANS (1993), FAWCETT (1994), GELATT (1995), SEVERIN (1995) descreveram as principais características e variações anatômicas apresentadas pelo aparato de drenagem lacrimal.

A excreção lacrimal faz-se através de sistemas de força mecânica muscular, gravitacional e capilar (LEMP, 1992).

A existência de uma segunda abertura do ducto nasolacrimal presente em 50% dos casos e descrita por SEVERIN (1995), pode apresentar uma variação no seu posicionamento na cavidade oral, sendo muitas vezes localizada na transição do palato duro com o mole.

A epífora é uma afecção ocular freqüente no dia a dia da Clínica de Animais de Companhia e que afeta principalmente cães e gatos de raças de pequeno porte e braquicefálicos (Ex. Poodle Toy, Shih-tzu, Pequinês, gatos persas, etc.) e o seu controle e tratamento através de medicamentos muitas vezes é pouco eficaz e as intervenções cirúrgicas tornam-se necessárias.
Durante os dois anos de realização deste projeto de pesquisa 33 pacientes, de diferentes raças de cães e gatos, necessitaram de intervenções cirúrgicas para a correção da epífora crônica.
Dentre os procedimentos padrões utilizados no diagnóstico da epífora devemos citar aqueles descritos por GELATT et al, que são: o teste do tempo de passagem da fluoresceína, teste de Schirmer e a lavagem do sistema lacrimal.

Entre estes, o teste da fluoresceína é o mais simples e rápido de se realizar, mas algumas vezes a interpretação do seu resultado não é tão evidente levando-se em consideração as variações anatômicas apresentadas pelas diferentes raças.

Normalmente observa-se a presença do corante no assoalho da narina ipsilateral à instilação da fluoresceína em 5 minutos em um animal normal, mas deve-se considerar que ás vezes a drenagem é feita grande parte para a região nasofaríngea.

A técnica de dacriocistorrinografia descrita inicialmente por CAMPBELL (1964), YAKELY (1971), GELATT (1972), TICER (1975), BECKMAN (1987) e adaptada neste trabalho, demonstrou-se ser bastante eficiente no estudo da anatomia e na detecção de patologias, tanto congênitas quanto adquiridas, que o sistema de drenagem lacrimal possa apresentar.

Com as modificações realizadas na técnica original, a execução do exame radiológico e a leitura das imagens obtidas tornaram-se muito mais simples.

Com a utilização do meio de contraste iodado misturado com lágrima artificial e fluoresceína, a passagem do contraste pelo sistema de drenagem lacrimal ocorreu de uma forma mais lenta devido ao aumento da viscosidade da mistura final, assim sendo, o aparato de drenagem lacrimal ficava preenchido por completo e de uma forma mais homogenia, facilitando a interpretação das imagens obtidas e a identificação de possíveis patologias.

A fluoresceína foi de grande valia para a determinação do momento exato do acionamento do aparelho de raio-x, evitando-se assim um acúmulo grande de contraste nas vias aéreas e laringe, o que poderia prejudicar a qualidade das imagens obtidas.

Dentre os procedimentos cirúrgicos descritos para a correção da epífora em cães e gatos, deu-se uma atenção especial a conjuntivorrinostomia descrita por COVITZ (1977) e a dacriocistorrinostomia descrita por SLATTER (1996) e modificada neste estudo.

A conjuntivorrinostomia mostrou-se eficaz nos casos aonde temos um comprometimento de todo o sistema de drenagem lacrimal (“punctas”, canalículos e ducto nasolacrimal), ou seja, nos casos onde se tem a perda do efeito capilar e de “bomba” das “punctas” e canalículos lacrimais.
Devido à necessidade de realizar-se uma perfuração do osso lacrimal, utilizando-se uma broca ortopédica, o sangramento e a dor pós-operatória podem ser significativos.

Com a utilização da dacriocistorrinostomia em pacientes com preservação anatômica das “punctas” e canalículos lacrimais, o efeito de drenagem obtido no pós-operatório foi considerado mais eficaz, levando-se em consideração que o trajeto percorrido pela lágrima quando drenada é similar àquela observada em um paciente normal.

A perfuração do osso nasal também se faz necessária e assim como na conjuntivorrinostomia, existe um certo grau de desconforto e sangramento pós-operatório que pode variar em função do calibre da sonda utilizada para o procedimento.

Com a modificação realizada neste estudo no procedimento da dacriocistorrinostomia, a técnica cirúrgica tornou-se mais eficaz e fácil de ser realizada.

Devido ao fato de utilizarmos uma sonda de calibre bem fino (tipo “Tom Cat”) e por não haver a necessidade de perfuração do osso nasal assim como nos outros procedimentos, o desconforto e sangramento trans e pós-operatório é muito discreto.

O procedimento é bem menos complexo que as outras técnicas descritas para o tratamento cirúrgico da epífora e não exige nenhum instrumental especial.

Na maioria dos casos, não existe a necessidade da utilização do colar elisabetano, tornando muito mais confortável a vida do paciente submetido ao procedimento.

Existe também uma grande facilidade para a retirada da sonda utilizada, muitas vezes podendo ser feita apenas com a utilização de colírio de anestésico local.

A conjuntivobucostomia e a conjuntivorralostomia seguiram os princípios descritos inicialmente por LESCURE (1984), SLATTER (1985) e LAFORGE (1992) e os resultados obtidos não foram muito promissores, pois os animais que foram submetidos a tais procedimentos apresentaram recidivas dos quadros de epífora devido a obstruções tanto inflamatórias quanto por restos alimentares do novo trajeto de drenagem lacrimal.

Muitas vezes a sonda utilizada em tais procedimentos migrava devido à ruptura dos pontos de fixação na mucosa oral, o que necessitava de nova intervenção cirúrgica.

Os animais que sofreram estas duas técnicas para o estabelecimento de um novo trajeto de drenagem lacrimal em direção a cavidade oral, apresentavam um maior desconforto no pós-operatório devido ao grande calibre da sonda utilizada e a irritação por esta causada na mucosa oral ou na região do palato.

Devido ao fato de que os procedimentos de conjuntivobucostomia e conjuntivorralostomia apresentarem resultados pouco favoráveis e às vezes duvidosos, as duas técnicas foram abandonadas durante a realização deste projeto de pesquisa.

A utilização do colírio de Ácido Salicílico a 0,3% seguiu as indicações sugeridas inicialmente por Wouk et al (1999). Considerando suas propriedades antifibróticas e antiinflamatórias, a utilização deste colírio, após a retirada das sondas utilizadas nos diferentes procedimentos cirúrgicos aqui estudados, é extremamente indicada.

O colírio de Ácido Salicílico a 0,3% foi utilizado no pós-operatório de todos pacientes submetidos aos diferentes procedimentos cirúrgicos estudados e aprimorados neste projeto de pesquisa.

Em apenas dois cães puderam-se observar uma reação local de hiperemia conjuntival e lacrimejamento após a instilação da droga. Tais reações adversas desapareciam após 48 horas do início da instilação do colírio.

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