Segundo GELATT (1975), HOLLY (1977), SAITO (1999)
a boa saúde do bulbo ocular está diretamente
relacionada não só com a produção
adequada do filme lacrimal, mas também com
uma drenagem eficaz da lágrima.
HOLLY (1977), DOANE (1981), LEMP (1992), EVANS (1993),
FAWCETT (1994), GELATT (1995), SEVERIN (1995) descreveram
as principais características e variações
anatômicas apresentadas pelo aparato de drenagem
lacrimal.
A excreção lacrimal faz-se através
de sistemas de força mecânica muscular,
gravitacional e capilar (LEMP, 1992).
A existência de uma segunda abertura do ducto
nasolacrimal presente em 50% dos casos e descrita
por SEVERIN (1995), pode apresentar uma variação
no seu posicionamento na cavidade oral, sendo muitas
vezes localizada na transição do palato
duro com o mole.
A epífora é uma afecção
ocular freqüente no dia a dia da Clínica
de Animais de Companhia e que afeta principalmente
cães e gatos de raças de pequeno porte
e braquicefálicos (Ex. Poodle Toy, Shih-tzu,
Pequinês, gatos persas, etc.) e o seu controle
e tratamento através de medicamentos muitas
vezes é pouco eficaz e as intervenções
cirúrgicas tornam-se necessárias.
Durante os dois anos de realização deste projeto de pesquisa
33 pacientes, de diferentes raças de cães e gatos, necessitaram
de intervenções cirúrgicas para a correção
da epífora crônica.
Dentre os procedimentos padrões utilizados no diagnóstico da
epífora devemos citar aqueles descritos por GELATT et al, que são:
o teste do tempo de passagem da fluoresceína, teste de Schirmer e a
lavagem do sistema lacrimal.
Entre estes, o teste da fluoresceína é o
mais simples e rápido de se realizar, mas
algumas vezes a interpretação do seu
resultado não é tão evidente
levando-se em consideração as variações
anatômicas apresentadas pelas diferentes raças.
Normalmente observa-se a presença do corante
no assoalho da narina ipsilateral à instilação
da fluoresceína em 5 minutos em um animal
normal, mas deve-se considerar que ás vezes
a drenagem é feita grande parte para a região
nasofaríngea.
A técnica de dacriocistorrinografia descrita
inicialmente por CAMPBELL (1964), YAKELY (1971),
GELATT (1972), TICER (1975), BECKMAN (1987) e adaptada
neste trabalho, demonstrou-se ser bastante eficiente
no estudo da anatomia e na detecção
de patologias, tanto congênitas quanto adquiridas,
que o sistema de drenagem lacrimal possa apresentar.
Com as modificações realizadas na
técnica original, a execução
do exame radiológico e a leitura das imagens
obtidas tornaram-se muito mais simples.
Com a utilização do meio de contraste
iodado misturado com lágrima artificial e
fluoresceína, a passagem do contraste pelo
sistema de drenagem lacrimal ocorreu de uma forma
mais lenta devido ao aumento da viscosidade da mistura
final, assim sendo, o aparato de drenagem lacrimal
ficava preenchido por completo e de uma forma mais
homogenia, facilitando a interpretação
das imagens obtidas e a identificação
de possíveis patologias.
A fluoresceína foi de grande valia para a
determinação do momento exato do acionamento
do aparelho de raio-x, evitando-se assim um acúmulo
grande de contraste nas vias aéreas e laringe,
o que poderia prejudicar a qualidade das imagens
obtidas.
Dentre os procedimentos cirúrgicos descritos
para a correção da epífora em
cães e gatos, deu-se uma atenção
especial a conjuntivorrinostomia descrita por COVITZ
(1977) e a dacriocistorrinostomia descrita por SLATTER
(1996) e modificada neste estudo.
A conjuntivorrinostomia mostrou-se eficaz nos casos
aonde temos um comprometimento de todo o sistema
de drenagem lacrimal (“punctas”, canalículos
e ducto nasolacrimal), ou seja, nos casos onde se
tem a perda do efeito capilar e de “bomba” das “punctas” e
canalículos lacrimais.
Devido à necessidade de realizar-se uma perfuração do
osso lacrimal, utilizando-se uma broca ortopédica, o sangramento e a
dor pós-operatória podem ser significativos.
Com a utilização da dacriocistorrinostomia
em pacientes com preservação anatômica
das “punctas” e canalículos lacrimais, o efeito
de drenagem obtido no pós-operatório
foi considerado mais eficaz, levando-se em consideração
que o trajeto percorrido pela lágrima quando
drenada é similar àquela observada
em um paciente normal.
A perfuração do osso nasal também
se faz necessária e assim como na conjuntivorrinostomia,
existe um certo grau de desconforto e sangramento
pós-operatório que pode variar em função
do calibre da sonda utilizada para o procedimento.
Com a modificação realizada neste
estudo no procedimento da dacriocistorrinostomia,
a técnica cirúrgica tornou-se mais
eficaz e fácil de ser realizada.
Devido ao fato de utilizarmos uma sonda de calibre
bem fino (tipo “Tom Cat”) e por não haver
a necessidade de perfuração do osso
nasal assim como nos outros procedimentos, o desconforto
e sangramento trans e pós-operatório é muito
discreto.
O procedimento é bem menos complexo que as
outras técnicas descritas para o tratamento
cirúrgico da epífora e não exige
nenhum instrumental especial.
Na maioria dos casos, não existe a necessidade
da utilização do colar elisabetano,
tornando muito mais confortável a vida do
paciente submetido ao procedimento.
Existe também uma grande facilidade para
a retirada da sonda utilizada, muitas vezes podendo
ser feita apenas com a utilização de
colírio de anestésico local.
A conjuntivobucostomia e a conjuntivorralostomia
seguiram os princípios descritos inicialmente
por LESCURE (1984), SLATTER (1985) e LAFORGE (1992)
e os resultados obtidos não foram muito promissores,
pois os animais que foram submetidos a tais procedimentos
apresentaram recidivas dos quadros de epífora
devido a obstruções tanto inflamatórias
quanto por restos alimentares do novo trajeto de
drenagem lacrimal.
Muitas vezes a sonda utilizada em tais procedimentos
migrava devido à ruptura dos pontos de fixação
na mucosa oral, o que necessitava de nova intervenção
cirúrgica.
Os animais que sofreram estas duas técnicas
para o estabelecimento de um novo trajeto de drenagem
lacrimal em direção a cavidade oral,
apresentavam um maior desconforto no pós-operatório
devido ao grande calibre da sonda utilizada e a irritação
por esta causada na mucosa oral ou na região
do palato.
Devido ao fato de que os procedimentos de conjuntivobucostomia
e conjuntivorralostomia apresentarem resultados pouco
favoráveis e às vezes duvidosos, as
duas técnicas foram abandonadas durante a
realização deste projeto de pesquisa.
A utilização do colírio de Ácido
Salicílico a 0,3% seguiu as indicações
sugeridas inicialmente por Wouk et al (1999). Considerando
suas propriedades antifibróticas e antiinflamatórias,
a utilização deste colírio,
após a retirada das sondas utilizadas nos
diferentes procedimentos cirúrgicos aqui estudados, é extremamente
indicada.
O colírio de Ácido Salicílico
a 0,3% foi utilizado no pós-operatório
de todos pacientes submetidos aos diferentes procedimentos
cirúrgicos estudados e aprimorados neste projeto
de pesquisa.
Em apenas dois cães puderam-se observar uma
reação local de hiperemia conjuntival
e lacrimejamento após a instilação
da droga. Tais reações adversas desapareciam
após 48 horas do início da instilação
do colírio.
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