Para o presente estudo foram utilizados cães
e gatos provenientes do Hospital Veterinário
do Setor de Ciências Agrárias da Universidade
Federal do Paraná e de Hospitais Veterinários
particulares de referência durante um período
de dois anos.
Após os pacientes serem submetidos a um exame
físico-clínico completo, realiza-se
um exame oftalmológico acurado utilizando-se
a oftalmoscopia direta e indireta para a análise
do bulbo, anexos oculares e fundo de olho.
Para a mensuração da produção lacrimal emprega-se
o teste de Schirmer I e o exame da patência do sistema de drenagem nasolacrimal
incluiu inicialmente a realização do teste de passagem da fluoresceína
com posterior visualização utilizando-se quarto-escuro e lâmpada
de Wood (luz cobalto) para facilitar a identificação do corante.
Os animais que apresentavam um tempo de passagem
da fluoresceína para as narinas de 5 minutos
ou mais e com os sinais clínicos característicos
de epífora (previamente citados na introdução)
eram destinados a cirurgia corretiva.
O procedimento cirúrgico utilizado para o
tratamento da epífora crônica variava
de acordo com as características próprias
de cada paciente (Tabela 1).
Nos pacientes de pequeno porte, principalmente cães
e gatos de raças braquicefálicas e
que apresentam predisposição a obstruções
do sistema de drenagem lacrimal, utilizou-se a técnica
da dacriocistorrinostomia modificada e nos animais
de grande porte o procedimento de eleição
foi o da dacriocistorrinostomia clássica.
Ambos os procedimentos basearam-se nos princípios anteriormente estabelecidos
por COVITZ 1977).
Em dois cães utilizou-se a técnica
de conjuntivobucostomia e em outros dois pacientes
caninos a de conjuntivorralostomia. Ambos procedimentos
basearam-se nas técnicas descritas previamente
por LESCURE (1984), SLATTER (1985) e LAFORGE (1992).
Tabela 1: Relação dos pacientes submetidos
aos diferentes procedimentos cirúrgicos para
tratamento da epífora crônica.
Dacriocistorrinostomia
Após o paciente ser preparado para cirurgia
asséptica, este é anestesiado e posicionado
em decúbito lateral com elevação
da cabeça. Inicia-se a incisão de
pele e subcutâneo aproximadamente 1,5 cm
obliquamente ao canto nasal ventral ocular e paralelamente
ao plano nasal e com uma extensão de 2,5
a 3 cm de comprimento. Após a dissecção
romba das fibras musculares e angiotripsia dos
vasos sanguíneos presentes, tem-se acesso
ao osso nasal (Figura 12), cujo periósteo é rebatido
utilizando-se elevador periostal.
Com a utilização de uma broca de
3 mm faz-se um orifício no osso nasal (Figura
13) para obter-se acesso a cavidade nasal. Hemorragias
em lençol podem ser controladas com auxílio
de epinefrina diluída em solução
fisiológica (1 : 10.000). A “puncta” inferior
do sistema de drenagem lacrimal ipsilateral é preparada
para canulação com auxílio
de um dilatador de “puncta” lacrimal. O dilatador
(Figura 14) é avançado por sob as
fibras musculares até a incisão na
região do osso nasal. A cânula utilizada
deve ser previamente preparada e adequada ao porte
do paciente a ser operado.
No caso de um cão de médio porte
pode-se utilizar uma sonda uretral no 6 ou 8 com
um comprimento de aproximadamente 8 cm e com uma
das extremidades previamente evertida utilizando-se
uma chama de lamparina a álcool, de modos
que esta assume uma forma de “aba-de-chapéu”,
tornando-se auto-contensiva.
No caso de um cão de pequeno porte pode-se
utilizar a sonda tipo uretral para gatos do tipo “Tom
Cat”.
Depois de feita a medição da cânula
(Figura 15), ela é avançada em direção
ao osso nasal perfurado e ganha acesso à cavidade
nasal (Figura 16).
É importante deixar-se apenas 1 a 2 cm
da sonda na cavidade nasal para evitar-se uma irritação
da mucosa das vias aéreas, predispondo a
infecções secundárias.
Para a síntese da pele utiliza-se fio inabsorvível sintético
e pontos interrompidos simples envolvendo pele, subcutâneo e parte das
fibras musculares.
Após a retirada da sonda utilizada, a patência
do novo trajeto de drenagem lacrimal pode ser avaliada
através da instilação tópica
de fluoresceína no olho operado e sua posterior
visualização no assoalho da narina
ipsilateral.
Dacriocistorrinostomia modificada para
utilização
em gatos e cães braquicefálicos de
pequeno porte
Após
o paciente ser preparado para cirurgia asséptica,
este é anestesiado e posicionado
em decúbito lateral com elevação
da cabeça. Através da utilização
de uma sonda de dilatação de “puncta” lacrimal
tipo Maniglia, promove-se um aumento do lúmen
da “puncta” lacrimal inferior.
Na dacriocistorrinostomia modificada, utiliza-se
uma sonda uretral de silicone tipo “Tom Cat”, previamente preparada através da utilização
de uma agulha hipodérmica 40 x 16 (sem o canhão) que é afixada
na ponta distal da sonda (Figuras 20 e 21). Tal sonda modificada, depois de
esterilizada com óxido de etileno ou pastilhas de paraformoldeído, é introduzida
através da “puncta” e canalículo inferiores em direção à narina
ipsilateral ao olho que está sendo operado. O dispositivo é avançado
pelo tecido muscular-subcutâneo até alcançar a cartilagem
nasal dorsal, aonde este é introduzido na fossa nasal (Figura 23). A
sonda é adaptada ao comprimento e anatomia particular de cada paciente
operado e é cortada, tomando-se cuidado de deixar-se apenas 1 cm desta
na região da narina para evitar-se irritação da mucosa
nasal.
Normalmente, a sonda uretral modificada tipo “Tom Cat” por possuir uma extremidade
proximal de calibre maior que o corpo (Figura 24), torna-se auto-contensiva,
não havendo necessidade de fixação através de pontos
com fio de sutura.
No caso de pacientes com temperamento mais agitado
e onde existe a necessidade de uma fixação
adicional da sonda utilizada, pode-se utilizar
um ponto de sutura tipo Swift na região
da mucosa nasal, utilizando-se um fio de náilon
6-0 (Figura 25).
Após a retirada do cateter de demora, a
patência do novo trajeto de drenagem lacrimal
pode ser avaliada através do teste de passagem
de fluoresceína no olho operado e com sua
posterior visualização no assoalho
da narina ipsilateral.
Conjuntivobucostomia
Procedimento cirúrgico:
Após o paciente ser preparado para cirurgia
asséptica, este é anestesiado e posicionado
em decúbito lateral com elevação
da cabeça.
Uma incisão de aproximadamente 1 cm de
comprimento é feita no fundo de saco-conjuntival
e através da utilização de
um pino intramedular de Kirschner número
3, inicia-se a tunelização em direção
a região compreendida entre a gengiva e
o quarto pré-molar superior (Figura 26).
Posteriormente, insere-se uma sonda uretral de tamanho adaptado ao porte do
paciente (variando da n o 4 à 8) previamente preparada de maneira similar àquela
utilizada para o procedimento de dacriocistorrinostomia clássica, de
modos a tornar-se auto-contensiva.
Uma variação de tal procedimento é a
chamada conjuntivorralostomia (Figuras 27 e 28),
onde a sonda uretral ao invés de ser direcionada
para a gengiva, é colocada na região
de transição do palato mole com o
palato duro após perfuração
prévia do osso maxilar com auxílio
de uma broca ortopédica no 3 .
Pós-operatório
O pós-operatório dos procedimentos
acima descritos consistiu na utilização
de colar elisabetano nos animais muito inquietos;
colírio de antibiótico de amplo espectro
(tobramicina ou ciprofloxacina) cinco vezes ao
dia durante 15 dias; colírio de antiinflamatório
não esteroidal (diclofenaco sódico)
três vezes ao dia durante o período
de 15 dias e antibiótico de amplo espectro
via oral (enrofloxacina) uma vez ao dia durante
10 dias.
No caso da conjuntivobucostomia e conjuntivorralostomia,
indicava-se também a utilização
de alimentação líquida a pastosa
durante o período de permanência da
sonda.
A retirada das sondas utilizadas foi feita após
um período de 40 a 45 dias e então
os pacientes eram mantidos com colírio de ácido
salicílico a 0,3% duas vezes ao dia durante
um período de 4 semanas para evitar-se estenose
cicatricial pós-operatória.
Três crânios (um Boxer, um Cocker
Spaniel e um São Bernardo) foram fixados
e preparados para o estudo topográfico e
macroscópico do trajeto percorrido pelo
sistema excretor nasolacrimal.
As peças eram dissecadas e depois de realizado
um corte sagital mediano, o aparato de drenagem
lacrimal era canulado e injetava-se látex
misturado a corante azul para facilitar a sua visualização
e dissecção.
Paralelamente ao estudo e desenvolvimento das
técnicas utilizadas para a correção
da epífora, estudou-se e aprimorou-se o
procedimento de dacriocistorrinografia, que consiste
no estudo radiográfico contrastado do sistema
de drenagem lacrimal.
Para tal procedimento foram utilizados dez cães
de diferentes raças e 6 gatos.
Em alguns pacientes utilizou-se um filme de radiografia
específico para o exame de mamografia em
seres humanos (MIN-R, Kodak?).
Dacriocistorrinografia
O material utilizado na adaptação
e aprimoramento da técnica de dacriocistorrinografia
consistiu na utilização de ¼ de
lágrima artificial1 (dextrano 70 + hipromelose;
Lacrima Plus?), ¾ de contraste iodado2 (Iopamiron
?), 1 gota ou 1 tira teste de fluoresceína3,
uma seringa de 3 ou 5 ml e uma cânula endovenosa4
tipo Insyte n0 22 (para cães de médio
a grande porte) ou n0 24, dependendo do porte do
paciente (Figura 5).
Após anestesia geral, os animais eram posicionados
em decúbito lateral com pequena elevação
da cabeça de modos que esta permanecia paralela
ao plano da mesa de radiografia. Para melhor visualização
e para evitar-se sobreposição do
sistema de drenagem lacrimal com os ossos da cabeça,
principalmente o nasal e maxilar, utilizou-se uma
inclinação da cabeça de aproximadamente
30o. Um cateter tipo Insyte no 22 era posicionado
no canalículo superior e puncta inferior
era obliterada com pressão digito-digital
no momento da administração do contraste.
O raio-x era disparado assim que o contraste era
visualizado no assoalho da narina. Para facilitar
sua identificação, utilizou-se uma
luz azul de cobalto que contrastava com a fluoresceína.
1-Lácrima Plus: Alcon
2-Iopamiron: Schering
3-Fluoresceína batão: Ophthalmos
4-Catéter Insyte: BD
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