Dr. João Alfredo Kleiner - DVM, MSc.
 
..Curitiba, 23-Jan-2006 14:20
: : Materiais e Métodos:

Para o presente estudo foram utilizados cães e gatos provenientes do Hospital Veterinário do Setor de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Paraná e de Hospitais Veterinários particulares de referência durante um período de dois anos.

Após os pacientes serem submetidos a um exame físico-clínico completo, realiza-se um exame oftalmológico acurado utilizando-se a oftalmoscopia direta e indireta para a análise do bulbo, anexos oculares e fundo de olho.

Para a mensuração da produção lacrimal emprega-se o teste de Schirmer I e o exame da patência do sistema de drenagem nasolacrimal incluiu inicialmente a realização do teste de passagem da fluoresceína com posterior visualização utilizando-se quarto-escuro e lâmpada de Wood (luz cobalto) para facilitar a identificação do corante.

Os animais que apresentavam um tempo de passagem da fluoresceína para as narinas de 5 minutos ou mais e com os sinais clínicos característicos de epífora (previamente citados na introdução) eram destinados a cirurgia corretiva.

O procedimento cirúrgico utilizado para o tratamento da epífora crônica variava de acordo com as características próprias de cada paciente (Tabela 1).

Nos pacientes de pequeno porte, principalmente cães e gatos de raças braquicefálicas e que apresentam predisposição a obstruções do sistema de drenagem lacrimal, utilizou-se a técnica da dacriocistorrinostomia modificada e nos animais de grande porte o procedimento de eleição foi o da dacriocistorrinostomia clássica.
Ambos os procedimentos basearam-se nos princípios anteriormente estabelecidos por COVITZ 1977).

Em dois cães utilizou-se a técnica de conjuntivobucostomia e em outros dois pacientes caninos a de conjuntivorralostomia. Ambos procedimentos basearam-se nas técnicas descritas previamente por LESCURE (1984), SLATTER (1985) e LAFORGE (1992).

Tabela 1: Relação dos pacientes submetidos aos diferentes procedimentos cirúrgicos para tratamento da epífora crônica.

Procedimento cirúrgico
Espécie
Raça
Idade
N° pacientes
Conjuntivobucostomia
Canina
Cocker Spaniel
4 anos
2
Conjuntivorralostomia
Canina
Pastor Alemão
3 anos
1
Canina
Rottweiler
5 anos
1
Dacriocistorrinostomia
Canina
Cocker Spaniel
2 – 6 anos
7
Canina
Pastor Alemão
4 – 5 anos
3
Canina
SRD
3 – 4 anos
4
Canina
Rottweiler
6 - 7 anos
2
Canina
Poodle Toy
2 – 4 anos
3
Dacriocistorrinostomia modificada
Canina
Pequinês
3 – 5 anos
3
Felina
Persa
2 – 3 anos
4
Felina
Siamês
2 anos
2
Felina
Sagrado Birmânia
1,5 anos
1
Total de Pacientes
33


Dacriocistorrinostomia

Após o paciente ser preparado para cirurgia asséptica, este é anestesiado e posicionado em decúbito lateral com elevação da cabeça. Inicia-se a incisão de pele e subcutâneo aproximadamente 1,5 cm obliquamente ao canto nasal ventral ocular e paralelamente ao plano nasal e com uma extensão de 2,5 a 3 cm de comprimento. Após a dissecção romba das fibras musculares e angiotripsia dos vasos sanguíneos presentes, tem-se acesso ao osso nasal (Figura 12), cujo periósteo é rebatido utilizando-se elevador periostal.

Com a utilização de uma broca de 3 mm faz-se um orifício no osso nasal (Figura 13) para obter-se acesso a cavidade nasal. Hemorragias em lençol podem ser controladas com auxílio de epinefrina diluída em solução fisiológica (1 : 10.000). A “puncta” inferior do sistema de drenagem lacrimal ipsilateral é preparada para canulação com auxílio de um dilatador de “puncta” lacrimal. O dilatador (Figura 14) é avançado por sob as fibras musculares até a incisão na região do osso nasal. A cânula utilizada deve ser previamente preparada e adequada ao porte do paciente a ser operado.

No caso de um cão de médio porte pode-se utilizar uma sonda uretral no 6 ou 8 com um comprimento de aproximadamente 8 cm e com uma das extremidades previamente evertida utilizando-se uma chama de lamparina a álcool, de modos que esta assume uma forma de “aba-de-chapéu”, tornando-se auto-contensiva.

No caso de um cão de pequeno porte pode-se utilizar a sonda tipo uretral para gatos do tipo “Tom Cat”.

Depois de feita a medição da cânula (Figura 15), ela é avançada em direção ao osso nasal perfurado e ganha acesso à cavidade nasal (Figura 16).

É importante deixar-se apenas 1 a 2 cm da sonda na cavidade nasal para evitar-se uma irritação da mucosa das vias aéreas, predispondo a infecções secundárias.
Para a síntese da pele utiliza-se fio inabsorvível sintético e pontos interrompidos simples envolvendo pele, subcutâneo e parte das fibras musculares.

Após a retirada da sonda utilizada, a patência do novo trajeto de drenagem lacrimal pode ser avaliada através da instilação tópica de fluoresceína no olho operado e sua posterior visualização no assoalho da narina ipsilateral.

Dacriocistorrinostomia modificada para utilização em gatos e cães braquicefálicos de pequeno porte

Após o paciente ser preparado para cirurgia asséptica, este é anestesiado e posicionado em decúbito lateral com elevação da cabeça. Através da utilização de uma sonda de dilatação de “puncta” lacrimal tipo Maniglia, promove-se um aumento do lúmen da “puncta” lacrimal inferior.
Na dacriocistorrinostomia modificada, utiliza-se uma sonda uretral de silicone tipo “Tom Cat”, previamente preparada através da utilização de uma agulha hipodérmica 40 x 16 (sem o canhão) que é afixada na ponta distal da sonda (Figuras 20 e 21). Tal sonda modificada, depois de esterilizada com óxido de etileno ou pastilhas de paraformoldeído, é introduzida através da “puncta” e canalículo inferiores em direção à narina ipsilateral ao olho que está sendo operado. O dispositivo é avançado pelo tecido muscular-subcutâneo até alcançar a cartilagem nasal dorsal, aonde este é introduzido na fossa nasal (Figura 23). A sonda é adaptada ao comprimento e anatomia particular de cada paciente operado e é cortada, tomando-se cuidado de deixar-se apenas 1 cm desta na região da narina para evitar-se irritação da mucosa nasal.
Normalmente, a sonda uretral modificada tipo “Tom Cat” por possuir uma extremidade proximal de calibre maior que o corpo (Figura 24), torna-se auto-contensiva, não havendo necessidade de fixação através de pontos com fio de sutura.

No caso de pacientes com temperamento mais agitado e onde existe a necessidade de uma fixação adicional da sonda utilizada, pode-se utilizar um ponto de sutura tipo Swift na região da mucosa nasal, utilizando-se um fio de náilon 6-0 (Figura 25).

Após a retirada do cateter de demora, a patência do novo trajeto de drenagem lacrimal pode ser avaliada através do teste de passagem de fluoresceína no olho operado e com sua posterior visualização no assoalho da narina ipsilateral.

Conjuntivobucostomia

Procedimento cirúrgico:

Após o paciente ser preparado para cirurgia asséptica, este é anestesiado e posicionado em decúbito lateral com elevação da cabeça.

Uma incisão de aproximadamente 1 cm de comprimento é feita no fundo de saco-conjuntival e através da utilização de um pino intramedular de Kirschner número 3, inicia-se a tunelização em direção a região compreendida entre a gengiva e o quarto pré-molar superior (Figura 26).
Posteriormente, insere-se uma sonda uretral de tamanho adaptado ao porte do paciente (variando da n o 4 à 8) previamente preparada de maneira similar àquela utilizada para o procedimento de dacriocistorrinostomia clássica, de modos a tornar-se auto-contensiva.

Uma variação de tal procedimento é a chamada conjuntivorralostomia (Figuras 27 e 28), onde a sonda uretral ao invés de ser direcionada para a gengiva, é colocada na região de transição do palato mole com o palato duro após perfuração prévia do osso maxilar com auxílio de uma broca ortopédica no 3 .

Pós-operatório

O pós-operatório dos procedimentos acima descritos consistiu na utilização de colar elisabetano nos animais muito inquietos; colírio de antibiótico de amplo espectro (tobramicina ou ciprofloxacina) cinco vezes ao dia durante 15 dias; colírio de antiinflamatório não esteroidal (diclofenaco sódico) três vezes ao dia durante o período de 15 dias e antibiótico de amplo espectro via oral (enrofloxacina) uma vez ao dia durante 10 dias.

No caso da conjuntivobucostomia e conjuntivorralostomia, indicava-se também a utilização de alimentação líquida a pastosa durante o período de permanência da sonda.

A retirada das sondas utilizadas foi feita após um período de 40 a 45 dias e então os pacientes eram mantidos com colírio de ácido salicílico a 0,3% duas vezes ao dia durante um período de 4 semanas para evitar-se estenose cicatricial pós-operatória.

Três crânios (um Boxer, um Cocker Spaniel e um São Bernardo) foram fixados e preparados para o estudo topográfico e macroscópico do trajeto percorrido pelo sistema excretor nasolacrimal.

As peças eram dissecadas e depois de realizado um corte sagital mediano, o aparato de drenagem lacrimal era canulado e injetava-se látex misturado a corante azul para facilitar a sua visualização e dissecção.

Paralelamente ao estudo e desenvolvimento das técnicas utilizadas para a correção da epífora, estudou-se e aprimorou-se o procedimento de dacriocistorrinografia, que consiste no estudo radiográfico contrastado do sistema de drenagem lacrimal.

Para tal procedimento foram utilizados dez cães de diferentes raças e 6 gatos.

Em alguns pacientes utilizou-se um filme de radiografia específico para o exame de mamografia em seres humanos (MIN-R, Kodak?).

Dacriocistorrinografia

O material utilizado na adaptação e aprimoramento da técnica de dacriocistorrinografia consistiu na utilização de ¼ de lágrima artificial1 (dextrano 70 + hipromelose; Lacrima Plus?), ¾ de contraste iodado2 (Iopamiron ?), 1 gota ou 1 tira teste de fluoresceína3, uma seringa de 3 ou 5 ml e uma cânula endovenosa4 tipo Insyte n0 22 (para cães de médio a grande porte) ou n0 24, dependendo do porte do paciente (Figura 5).

Após anestesia geral, os animais eram posicionados em decúbito lateral com pequena elevação da cabeça de modos que esta permanecia paralela ao plano da mesa de radiografia. Para melhor visualização e para evitar-se sobreposição do sistema de drenagem lacrimal com os ossos da cabeça, principalmente o nasal e maxilar, utilizou-se uma inclinação da cabeça de aproximadamente 30o. Um cateter tipo Insyte no 22 era posicionado no canalículo superior e puncta inferior era obliterada com pressão digito-digital no momento da administração do contraste. O raio-x era disparado assim que o contraste era visualizado no assoalho da narina. Para facilitar sua identificação, utilizou-se uma luz azul de cobalto que contrastava com a fluoresceína.

1-Lácrima Plus: Alcon
2-Iopamiron: Schering
3-Fluoresceína batão: Ophthalmos
4-Catéter Insyte: BD

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