Dr. João Alfredo Kleiner - DVM, MSc.
 
: : Resumo da Tese :


Tratamento Cirurgico da Epífora Crônica em Animais de Companhia
Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Ciências Veterinárias, na área de Patologia Animal do Curso de Pós-Graduação em Veterinária, Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.
Orientador: Prof. Antônio Felipe Wouk

Resumo :
A epífora é uma patologia ocular de ocorrência muito comum na clínica veterinária e pode ser caracterizada por um extravasamento do filme lacrimal pela região subocular, causando conjuntivites recorrentes, dermatites, fistulações e mancha suboculares importantes. A epífora pode ser causada por anomalias congênitas ou condições adquiridas as quais provocam um estreitamento ou obstrução em algum nível do sistema excretor lacrimal. O presente projeto de pesquisa tem como objetivo relatar os procedimentos utilizados nas diferentes técnicas cirúrgicas utilizadas para o tratamento da epífora crônica em animais de companhia, bem como demonstrar as variações anatômicas apresentada pelo aparato de drenagem lacrimal em cães e gatos e também a descrição das técnicas utilizadas para o estudo radiográfico contrastado das vias lacrimais.

Abstract :
Epiphora is a very common ocular pathology in the small animal practice and can be characterized by a subocular overflow of the preocular lacrimal film that can cause recurrent conjunctivitis, dermatitis, fistulas, and tear staining syndrome. The epiphora can be caused either by congenital anomalies or acquired conditions that lead to a stricture or obstruction in any level of the excretory lacrimal apparatus. The present research project has the objectives of relating the procedures utilized in the different surgical techniques for the treatment of chronic epiphora in companion animals, show the anatomical variations of the lacrimal drainage system in dogs and cats and the description of the contrasted radiographic techniques used for studying the lacrimal apparatus.


Introdução e revisão de literatura :
A integridade da córnea, conjuntiva e pálpebras está na dependência da secreção contínua de lágrimas e também da sua correta drenagem.

O aparelho lacrimal é formado por uma parte secretora, que é constituída pelas glândulas lacrimais e acessórias, e outra excretora formada pelo sistema de drenagem lacrimal.
A lágrima ou filme lacrimal tem como principais funções: manutenção de uma superfície ocular uniforme (função refrativa), remoção de materiais estranhos da córnea e conjuntiva lubrificando-as (função de limpeza e lubrificação), permitir a passagem de nutrientes e oxigênio (função de nutrição) e ainda participa da defesa imunológica removendo microorganismos pela ação de lisozimas, imunoglobulinas, lactoferrinas e betalisina (função antimicrobiana).

O filme lacrimal pré-corneano é constituído de três camadas principais. A primeira e mais externa é a camada oleosa, que é produzida pelas glândulas de meibomio ou tarsais e pelas glândulas de Zeis (glândulas sebáceas modificadas associadas com os cílios) ambas localizadas na conjuntiva. Sua função é a de inibir a evaporação da camada aquosa.
A segunda camada (intermediária) é a camada aquosa, secretada pela glândula lacrimal principal (61% do total), pela glândula lacrimal da terceira pálpebra (35%) e pelas glândulas acessórias de Kraus e Wolfring (3%). É a camada mais espessa do filme lacrimal e constitui-se principalmente de sais inorgânicos, glicose, uréia, proteínas, glicoproteínas e biopolímeros (HOLLY, 1977).

A camada mais interna é a de mucina ou mucóide que é produzida pelas células caliciformes da conjuntiva (glândulas de Henley) e possui como principal função tornar a superfície hidrofóbica da córnea em hidrofílica (aderente à água), permitindo sua hidratação e uma maior uniformidade no recobrimento lacrimal ocular (GELATT, 1975).

O aparato de drenagem do filme lacrimal compreende os pontos ou “punctas” lacrimais, canalículos lacrimais, saco lacrimal e ducto nasolacrimal.

As “punctas” superiores e inferiores são as aberturas dos canalículos lacrimais e têm forma oval ou de fenda e sua abertura mede aproximadamente 1 mm x 0,3 mm, sendo o seu eixo maior paralelo à margem palpebral. Elas estão localizadas na conjuntiva palpebral na borda superior e inferior de 2 a 5 mm do canto medial, aproximadamente onde as glândulas tarsais terminam (EVANS, 1993).

Os canalículos lacrimais possuem um comprimento aproximado de 4 a 7 mm e um diâmetro de 0,5 a 1 mm. Estendem-se ao longo do músculo orbicular e unem-se ventralmente ao canto medial para formar o saco lacrimal, que situa-se na fossa do osso lacrimal.

O saco lacrimal não é bem desenvolvido nos cães e é uma simples dilatação no começo do ducto nasolacrimal, o qual apresenta uma constrição na sua passagem pelo osso lacrimal, tornando este local como um ponto importante de retenção de corpos estranhos que podem incitar reações inflamatórias obstrutivas (GELATT, 1995).

O ducto nasolacrimal passa através de um canal na superfície medial do osso maxilar e termina na “puncta” nasal, que está geralmente localizada no meato nasal ventro-lateral, 1 cm interiormente as narinas externas.

Quanto às dimensões do ducto nasolacrimal pode-se dizer que possui um diâmetro de aproximadamente 1 mm e o seu comprimento varia consideravelmente entre as raças braquicefálicas, mesocefálicas e dolicocefálicas.

Em aproximadamente 50% dos cães, o ducto nasolacrimal possui uma segunda abertura na mucosa oral no centro do palato duro, atrás dos incisivos superiores, no nível dos dentes caninos e são revestidos por um epitélio colunar pseudoestratificado alto (FAWCETT, 1994; SEVERIN, 1995).

O papel funcional do sistema de excretor lacrimal é o de drenagem do filme lacrimal da superfície ocular para as narinas. A evaporação, que varia de acordo com as condições climáticas, remove uma porção significativa da lágrima antes que a drenagem possa ocorrer (aproximadamente 25%).

A drenagem lacrimal ocorre como resultado de múltiplas forças e a maior parte (60%) do volume lacrimal é normalmente drenado através da “puncta” e canalículo inferiores (LEMP, 1992).

As lágrimas fluem ventralmente em resposta à gravidade e são puxadas para dentro dos canalículos durante o fechamento palpebral (ato de piscar) devido a uma redução da pressão intracanalicular (DOANE, 1981). Esta pressão reduzida desenvolve-se quando as paredes finas dos ductos são comprimidas pela contração do músculo orbicular. Além disso, a ação capilar e o efeito sifão do saco lacrimal puxam as lágrimas através dos canalículos e ductos lacrimais (GELLAT, 1991).

Estruturas similares a válvulas encontradas no aparato nasolacrimal de humanos que possuem a função de prevenir o refluxo lacrimal, não foram identificadas ainda nos animais domésticos (RAMSEY, 2000).

As desordens do sistema nasolacrimal em pequenos animais podem ser classificadas como congênitas (defeito de desenvolvimento) e adquiridas (inflamação, infecção, trauma, obstruções por corpos estranhos).

Dentre as afecções congênitas pode-se destacar a aplasia do ponto (“puncta”) lacrimal e ponto ectópico, micropuncta, atresia canalicular, dilatação cística do saco lacrimal e dos canalículos lacrimais, tortuosidade do ducto nasolacrimal em cães e gatos braquicefálicos e entrópio de canto medial em cães raças “Toy” e miniaturas com presença de pêlos na região da carúncula (WYMAN, 1986; GELLAT, 1991).

Entre as causas adquiridas salientam-se traumas (lacerações), oclusões causadas por corpo estranho ou neoplasias, infecções crônicas oculares por Clamydia sp, Micoplasma sp, Herpes virus e rinotraqueíte viral severa em felídeos domésticos, que resultando em dacriocistites e simbléfaro (BARNETT, 1984).

BROWN (2002) descreveu que a epífora em coelhos domésticos é freqüentemente associada a afecções dentárias, sendo muitas vezes o primeiro sinal das odontopatias.
As manifestações clínicas associadas às afecções do sistema lacrimal incluem epífora, secreção conjuntival mucopurulenta, fistulas nasofaciais e oronasais, edema com hiperemia da região do canto ventro-medial, manchas pronunciadas sub-oculares causadas pela ação de bactérias sobre as lactoferrinas do filme lacrimal e ainda tumorações da face e região nasal (GELATT, 1998).

É importante a diferenciação entre epífora e lacrimejamento ocular. A epífora pode ser definida como o extravasamento da lágrima para fora do olho devido a um estreitamento ou obstrução em algum nível do sistema excretor lacrimal; já o lacrimejamento é a produção excessiva de lágrima desencadeada por um estímulo psicológico (apenas no homem) ou irritativo dos olhos como nos casos de inflamações, conjuntivites, anomalias palpebrais (ex: entrópio, ectrópio, triquíases), glaucoma e irites (NEWTON, 2000).

A dacriocistite é definida como a inflamação que afeta o saco lacrimal e caracteriza-se pela presença de epífora e persistente conjuntivite (SLATTER, 1996).

SAITO (1999) apontou que as epiteliopatias corneanas (evidenciadas pelo exame de retenção de fluoresceína ou de Rosa Bengala pela córnea) estudadas em seis raças diferentes de cães, dentre elas o Shih-Tzu, ocorrem em 97% dos cães portadores de epífora e em 55% dos cães sem epífora.

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