SEQUESTRO CORNEANO EM FELINOS
Dr. João Alfredo Kleiner MV, MSc
Resumo: O seqüestro corneano é
uma patologia ocular restrita aos gatos e apresenta predileção
para os das raças Siamês, Persa e Himalaio. Ao exame clínico
nota-se a presença de uma área pigmentada dourada a enegrecida
normalmente localizada na parte central da córnea e que restringe-se
à metade anterior do estroma corneano, podendo atingir a membrana de
descemet. Este artigo tem como objetivo demonstrar a eficiência da ceratectomia
lamelar superficial seguida de flap conjuntival 3600 para o tratamento
desta patologia ocular.
Palavras-chave: Oftalmologia, córnea,
seqüestro, ceratectomia, felinos.
Abstract: Corneal sequestrum is an ocular
pathology that is restrict to cats affecting primarily the Siamese, Persian
and Himalaya breeds. At the ophthalmic exam there is a pigmented area located
generally at the central cornea and usually restricted to the anterior stroma
but it can involve the descemet´s membrane. This article intends to demonstrate
the efficacy of the superficial lamellar keratectomy followed by a 3600
conjunctival flap for the treatment of this ocular pathology.
Keywords: Ophthalmology, cornea, sequestrum,
keratectomy, felines.
INTRODUÇÃO
A córnea é a parte transparente
anterior da túnica fibrosa ocular (1/5 a 1/3 desta, sendo o restante
formado pela esclera). Tem como principais funções suportar o
conteúdo intra-ocular, a refringência da luz (devido a sua curvatura)
e transmissão da luz (devido a sua transparência).
Assim como o cristalino a córnea
é normalmente clara, avascular e refrativa à luz (40 – 42 dioptrias).
Depende do humor aquoso e do filme lacrimal para sua nutrição
e limpeza, e das pálpebras e membrana nictitante para proteção
do meio externo.
Quanto a sua espessura nos felinos pode-se
dizer que esta é mais espessa centralmente (0,8 a 1,0 mm) e mais fina
conforme aproximasse do limbo (0,4 a 0,6mm). É inervada pelos nervos
ciliares longos que derivam da porção oftálmica do nervo
trigêmio (V par, sensitivo). A sua camada mais superficial (epitélio)
é inervada principalmente com receptores para a dor enquanto no estroma
encontram-se receptores para pressão, isto pode explicar o porquê
das lesões corneanas superficiais serem muito mais dolorosas do que as
mais profundas (FAWCETT, 1994). A densidade de terminações nervosas
por área no epitélio corneano é estimada de ser 300 a 400
vezes maior do que a encontrada na epiderme. Os nervos sensitivos da córnea
possuem um reflexo axônico que sob estímulo causa miose, hiperemia,
hipertensão e aumento da proteína no humor aquoso (humor plasmóide).
Ao exame microscópico, a córnea
dos animais é formada por quatro, ás vezes cinco, camadas que
são (de fora para dentro): o epitélio, camada de Bowman´s (humanos
e outros primatas), estroma, membrana de descemet e endotélio (MAGRANE,
1998).
O epitélio corneano é do tipo
estratificado, escamoso não queratinizado e serve como uma barreira protetora
prevenindo a entrada de líquido, microorganismos e corpos estranhos (EVANS,
1993).
A transparência do tecido corneano
depende de vários fatores dentre eles podem-se citar: uma boa produção
e estabilidade do filme lacrimal além da harmonização entre
suas camadas. O estado de relativa desidratação corneana (75%
a 85% de água) deve-se principalmente ao bom funcionamento e integridade
do epitélio e do endotélio corneano.
Experimentalmente a remoção
do epitélio corneano causa um aumento de 200% na espessura da córnea
em 24 horas devido ao influxo de água (edema) e a remoção
do endotélio produz um aumento da sua espessura de 500%, ficando sua
permeabilidade aumentada em seis vezes, sendo assim o endotélio parece
ser muito mais importante na manutenção da detumescência
corneana do que o epitélio (WATSKY, et al, 1989).
Qualquer dano causado ao epitélio
ou ao endotélio corneano por traumas, toxinas, agentes infecciosos ou
doenças auto-imunes podem causar hidratação e opacidade
corneana.
A renovação completa do epitélio
corneano adulto ocorre a cada 5 - 7 dias e após uma hora da lesão
corneana as células do epitélio corneano começam a se achatar,
espalhar e migrar.
O seqüestro corneano é uma patologia
ocular restrita aos gatos com uma predileção para os da raça
Siamês, Persa e Himalaio. As características clínicas e
microscópicas são muito peculiares, sendo a biópsia raramente
necessária para confirmar-se o diagnóstico (GELATT, 1998).
A lesão microscópica é
uma área pobremente demarcada do estroma superficial axial que se torna
levemente acelular e desenvolve uma pigmentação dourada que se
intensifica e muda para marrom ou preto com o passar tempo. Geralmente restringe-se
à metade anterior do estroma corneano, mas em alguns casos pode atingir
a membrana de descemet.
A razão para a necrose e a natureza
da pigmentação é desconhecida.
Grânulos positivos ao PSA similares
a lisossomos identificados entre os queratócitos podem sugerir um processo
autolítico. Uma perda do epitélio adjacente ocorre provavelmente
devido a uma desvitalização estromal (GELATT, 1973).
A maioria das opiniões relativas
à natureza da pigmentação sugere que se trata de uma decomposição
da porfirina do filme lacrimal e se isto for verdade pelo menos uma descoloração
(se não decomposição) do estroma parece necessitar de uma
lesão na barreira hidrofóbica presente no epitélio corneano
para surgir (RAMSEY, 2000).
FEARTHERSTONE (2004) comprovou através
de microscopia ótica a presença de partículas de melanina
nos tecidos corneanos obtidos de gatos com seqüestro, provendo evidências
laboratoriais que caracterizam a natureza da descoloração tecidual
como melanina pela primeira vez.
Depois de algum tempo existe uma reação
inflamatória contra a área do seqüestro corneano, com migração
de vasos sanguíneos e leucócitos, particularmente macrófagos,
ao redor da lesão. Estes macrófagos tornam-se ingurgitados com
pigmento e tornam-se um marcador do seqüestro mesmo depois de este ser
expelido. A extrusão da região do seqüestro é uma
fase natural da patologia e parece requerer uma reação inflamatória
para acontecer. Raramente as lesões ocorrem na conjuntiva ou na terceira
pálpebra.
O porquê de o seqüestro corneano
afetar apenas felinos e ter predileção pelas raças acima
citadas não é sabido mas pode estar relacionada à característica
braquicefálica destas raças sugerindo que uma ceratite por exposição
possa estar envolvida (NEWTON, 2000).
A apoptose pode ter um papel importante
no seqüestro corneano felino independentemente da presença de DNA
de agentes infecciosos como Herpes vírus, Toxoplasma gondii, Chlamydophila
felis e Mycoplasma spp. (CULLEN, 2005).
O presente
trabalho tem como objetivos demonstrar a eficácia da ceratectomia lamelar
superficial com utilização do flap conjuntival tipo 360 o
para o tratamento do seqüestro felino.
MATERIAIS E MÉTODOS
Um felino da raça Persa de 2
anos de idade, macho, castrado, foi atendido pelo nosso serviço de oftalmologia
com queixa principal de discreta secreção conjuntival mucopurulenta
e pigmentação severa corneana.
Ao exame oftálmico notou-se a presença
de grande área de pigmentação enegrecida centro-corneana
e extensa neovascularização centrípeta.
A avaliação da fase aquosa
do filme lacrimal através do teste de Schirmer não se observou
alteração (acima de 15 mm) e o teste de fluoresceína não
apresentou retenção do corante bilateralmente.
Devido à característica da
lesão, sinais clínicos, raça e espécie do paciente
em questão, pode-se dizer tratar-se de um quadro de seqüestro corneano
crônico unilateral.
O paciente foi submetido à terapia
tópica ocular utilizando-se colírio de Dunason QID, pomada de
Maxitrol TID e limpeza ocular com chá de camomila gelado. A terapia inicial
teve como finalidade principal a de diminuir a reação inflamatória
ocular antes de o paciente ser submetido a um procedimento cirúrgico.
Após duas semanas de terapia observou-se
uma diminuição significativa da lesão e inflamação
ocular sendo então indicada a ceratectomia superficial lamelar associada
ao flap conjuntival 360o.
Após o paciente ser induzido com
propofol (Propovan ) e submetido à anestesia geral inalatória
com Isoflurano (Isoforine ) este foi posicionado e preparado para microcirurgia
ocular utilizando-se microscópio cirúrgico.
Para a ceratectomia lamelar utilizou-se
um bisturi de ponta de safira de 3.2 mm e um aumento de 16x.
A excisão do tecido corneano pigmentado
aprofundou-se até obter-se tecido estromal saudável (sem a presença
de pigmentação).
Para completar o procedimento, a conjuntiva
bulbar foi dissecada em toda a sua circunferência a partir da região
esclero-limbal utilizando-se uma tesoura de estrabismo. O flap originado foi
mobilizado (elevado) 5 mm da esclera e suas bordas suturadas em toda sua extensão
utilizando-se fio absorvível Vicryl 6-0 com pontos tipo wolf para diminuir-se
a tensão na região do flap obtido.
Uma tarsorrafia temporária foi realizada
na região palpebral lateral utilizando-se um ponto tipo wolf e fio de
mononilon 4-0 e mantida por 21 dias para proteger-se a região operada
e evitarem-se deiscências por intervenção direta do paciente
ou tensão tecidual no local.
No pós-operatório utilizou-se
colar elisabetano por 2 semanas, antibiótico terapia sistêmica
com amoxicilina + clavulanato de potássio (Clavulin) na dose de 62,5
mg VO, colírio de tobramicina (Tobrex ) QID , Dunason TID, diclofenaco
sódico (Still ) TID.
Após a retirada dos pontos de tarsorrafia
temporária observou-se que o tecido conjuntival mobilizado encontrava-se
aderido à região da ceratectomia e esta aderência foi facilmente
desfeita utilizando-se um cotonete.
A córnea apresentava uma excelente
cicatrização com apenas uma discreta opacidade (nébula)
cicatricial central e sem sinais de neovascularização corneana
importante. Iniciou-se a utilização de colírio de Prednisolona
(Pred Mild) BID associado ao Dunason durante 21 dias e após este período
observou-se uma excelente transparência corneana e retorno da função
visual normal.





RESULTADOS E DISCUSSÃO
O seqüestro corneano felino é
uma patologia ocular um tanto comum na clínica de pequenos animais e
alguns autores advogam o uso de tratamento terapêutico ao invés
de cirúrgico.
A associação do tratamento
medicamentoso através de antiinflamatórios esteroidais e com posterior
utilização da ceratectomia lamelar superficial e flap conjuntival
360 0 demonstrou ser uma opção muito boa para os casos
mais avançados de pigmentação corneana.
O procedimento cirúrgico é
de rápida execução e exige apenas material básico
para microcirurgia ocular (bisturi de safira e microscópio cirúrgico).
Comparativamente com o tratamento utilizando-se
apenas medicação tópica, a utilização da
cirurgia acima descrita apresenta uma resposta muito boa e com uma rápida
recuperação dos padrões visuais normais nos animais afetados.
CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A ceratectomia lamelar superficial com
subseqüente utilização de flap conjuntival 360 o
demonstrou ser uma técnica cirúrgica eficaz para o tratamento
do seqüestro corneano em felinos. Este procedimento resulta em um excelente
resultado cosmético e funcionabilidade visual em um curto espaço
de tempo e não se observaram recidivas nos casos operados.
Referências Bibliográficas:
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feline corneal sequestra. Veterinary Ophthalmology. Vol 8 (5), p.
295 – 303, 2005.
- EVANS, H.E.: Miller´s Anatomy of the Dog, 30
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- FAWCETT, D.W. Bloom and Fawcett. A textbook of histology.
12th ed., New York, Chapman Hall, p.916 - 917, 1994.
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Laboratory analysis of ocular samples from 12 cats. Veterinary Ophthalmology.
Vol. 7 (4), 229 – 238, 2004.
- GELATT, K.N.; PEIFER,R.L.; STEVENS,J.: Chronic ulcerative
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- GELATT, KIRK N.: Veterinary Ophthalmology. 3o
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- RAMSEY, DAVID T. et al.: Veterinary Ophthalmology
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- WATSKY M.A. et al. Cornea and sclera. Foundations
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